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terça-feira, janeiro 01, 2013

Vamos ao teatro Gastão?!

Sobe a cortina e acendem-se os focos. No palco a acção desenrola-se entre o programado e os pequenos imprevistos, que tantas vezes alteram o decorrer do esperado, conhecido e até ensaiado. Lá ao fundo, num canto escondido, uma fagulha brilha ainda quente da fogueira que a acendeu. Não se vê, não entra na cena, não se ouve, nem tem deixas onde entrar. Está ali simplesmente, lembrando a fogueira que, outrora, ali ardeu. A cortina desce e as luzes apagam da memória quaisquer rasgos de outros actos. 

Sobe a cortina e com ela o sol que se levanta por detrás das árvores e das pontes e das casas e dos homens que dormem ainda na quietude das noites de verão. A acção desdobra-se em vários palcos que se espalham um pouco por toda a linha do horizonte. Não há harmonia entre as cenas que se sucedem num remoinho de diálogos e se cruzam e desdizem entre si. Os personagens vagueiam entre sentimentos e responsabilidades, entre culpas e lembranças, entre desejos e amarguras, num equilíbrio coxo. Desce a cortina enquanto os bailarinos se apoiam nas palavras que pairam ainda no ar matinal. 
 
Sobe a cortina e a lua, uma enorme e redonda lanterna recortada no céu escuro da noite, inunda toda a acção num amarelo baço que romantiza os diálogos e acorda os sonhos. Uma sombra disforme atravessa o campo de visão. Passa por cada personagem como um sopro vindo de outras peças, de outras noites e fala-lhes de medos antigos, ou talvez de sonhos esquecidos, ou talvez de amores perdidos, ou apenas de sombras do vento no calor da noite. Enquanto não desce a cortina, a sombra mantém-se no centro da acção, inibindo as conversas, forçando os movimentos, consumindo toda a atenção como um grande buraco negro.
 
Sobe a cortina e o arco-íris reluz de um lado ao outro do palco. Os sonhos dançam livres e, no ar, uma leve brisa marinha embala os sentidos numa valsa "a mille temps". Borboletas passam em bandos colorindo o cenário, e as nuvens desfazem-se em pequenas bolas de sabão ao mais pequeno toque. Ninguém aparece em cena. Todos os personagens parecem ter adormecido num sonho de encantar e o tempo, controlado por um pequeno relógio de bolso deixado ao acaso no chão, segue alegre ao ritmo acelerado da orquestra. A cortina começa a descer, mas os espectadores agarram as cordas e sobem ao palco onde se instalam, confortavelmente, no primeiro tufo de relva vago que encontram. 
 
A acção começa onde onde a história devia acabar.
 
Liliana
13-Ago-2009




"Vêm de dentro repelidos
Conforme o seu destino a sua cor varia
pois escolhem a base de acordo com
a luz que o rosto cria

À frente da cortina enfrentam
o vazio que lhes dava guarida
Em sepulcros abrigam
as faces atingidas

No palco deambulam como num
tempo estreito entre duas crateras
a que na sua frente lhes recolhe os soluços
e o nada donde vieram"

"Os actores" de Gastão Cruz
in "As Leis do Caos"

domingo, maio 16, 2010

Agarra esse sonho, Gastão!



Agarra esse sonho! Segura-o pela ponta do fio e deixa-o voar como um papagaio. As ruas desta cidade precisam de cores de formas de sorrisos...

Solta o fio! Deixa o sonho esvoaçar por entre as escadas e as ruas e as avenidas e os jardins. Esta cidade chora por um sonho verdadeiro, daqueles que se vivem no limiar da imaginação e nos levam até à mais real das fantasias.

Ai, não deixes afastar o sonho, que é meu... O sonho, que me foge flutuando sobre o rio, reflectido no azul das águas, tingindo o azul do céu. O meu sonho que invade esta cidade num remoinho de cores.

Agarra esse sonho! Segura-o bem, deixa-me olhar para ele, ver se ainda é meu... se não se afastou do caminho... aquele que sonhei... se não se perdeu das vontades... com as quais eu sonhei... Esta cidade corrompe os sonhos que voam soltos na brisa matinal.

Vês aquele papagaio? Não sei porquê, lembra-me alguma coisa, algo que perdi, que esqueci...
Vamos lançar papagaios! Esta cidade precisa de novas cores, formas, sorrisos...


Liliana





"Estou deitado no sonho não
perturbes o caos que me constrói
Afasta a tua mão

das pálpebras molhadas
Debaixo delas passa
a água das imagens"

"O caos do Sonho" Gastão Cruz, in "Órgão de Luzes"

segunda-feira, novembro 16, 2009

Sonhas para mim, Gastão?

Estava tudo planeado ao pormenor, cada minuto pensado e escalonado, os passos contados e organizados, as palavras medidas, pesadas e confeccionadas. Tudo planeado de acordo com a agenda desenhada de um sonho bem nítido e delineado.

Os dias anteriores já tinham obedecido à estrutura definida no esquema previamente discutido, aprovado e distribuído por todos os envolvidos. O tempo é um elemento crucial na preparação de um sonho, e todos respeitavam os prazos e cumpriam as indicações.

O dia chegou e os preparativos seguiam-se mais ou menos dentro do previsto, as últimas peças do puzzle são sempre as mais difíceis de encaixar mas nada saía radicalmente do plano. O nervosismo que antecede um grande evento não se esqueceu de aparecer, e um burburinho de fundo, quase imperceptível, anunciava que o sonho não tardava a começar.

À hora marcada, no local planeado, com a envolvência combinada, de acordo com o estabelecido, iniciou-se a contagem decrescente... Alguns segundos e todo o esforço até ali mudo tornar-se-ia real e visível! Alguns segundos e todos viveriam um sonho preparado, pensado e construído por cada um! Alguns segundos e todo o caminho percorrido faria, finalmente, sentido!

Estava tudo planeado ao pormenor de acordo com a agenda desenhada de um sonho bem nítido e delineado... A hora certa chegou, o enquadramento estava perfeito, o ânimo era o melhor, todos os envolvidos se sentiam empenhados, mas o sonho, esse teimava em não aparecer...

Estava tudo planeado, menos um pequeno pormenor... Para viver um sonho alguém tem de o sonhar... Pensaram em tudo, organizaram, prepararam e solucionaram as questões práticas, estavam todos tão envolvidos nas suas tarefas que não sobrava ninguém para sonhar...

Liliana Lima








"Estou deitado no sonho
não perturbes o caos que me constrói.
Afasta a tua mão
das pálpebras molhadas.
Debaixo delas passa
a água das imagens."



"O caos do sonho" de Gastão Cruz
in "Órgão de Luzes"

quinta-feira, agosto 13, 2009

Vamos ver o teatro, Gastão?

Sobe a cortina e acendem-se os focos. No palco a acção desenrola-se entre o programado e os pequenos imprevistos, que tantas vezes alteram o decorrer do esperado, conhecido e até ensaiado. Lá ao fundo, num canto escondido, uma fagulha brilha ainda quente da fogueira que a acendeu. Não se vê, não entra na cena, não se ouve, nem tem deixas onde entrar. Está ali simplesmente, lembrando a fogueira que, outrora, ali ardeu. A cortina desce e as luzes apagam da memória quaisquer rastos de outros actos.
Sobe a cortina e com ela o sol que se levanta por detrás das árvores e das pontes e das casas e dos homens que dormem ainda na quietude das noites de verão. A acção desdobra-se em vários palcos que se espalham um pouco por toda a linha do horizonte. Não há harmonia entre as cenas que se sucedem num remoinho de diálogos que se cruzam e desdizem entre si. Os personagens vagueiam entre sentimentos e responsabilidades, entre culpas e lembranças, entre desejos e amarguras, num equilíbrio coxo. Desce a cortina enquanto os bailarinos se apoiam nas palavras que pairam ainda no ar matinal.
Sobe a cortina e a lua, uma enorme e redonda lanterna recortada no céu escuro da noite, inunda toda a acção num amarelo baço que romantiza os diálogos e acorda os sonhos. Uma sombra disforme atravessa o campo de visão. Passa por cada personagem como um sopro vindo de outras peças, de outras noites e fala-lhes de medos antigos, ou talvez de sonhos esquecidos, ou talvez de amores perdidos, ou talvez apenas de sombras do vento no calor da noite. Enquanto não desce a cortina, a sombra mantém-se no centro da acção, inibindo as conversas, forçando os movimentos, consumindo toda a atenção como um grande buraco negro.
Sobe a cortina e um enorme arco-íris reluz de um lado ao outro do palco. Os sonhos dançam livres e no ar uma leve brisa marinha embala os sentidos numa valsa "a mille temps". Borboletas passam em bandos colorindo o cenário e as nuvens desfazem-se em pequenas bolas de sabão ao mais pequeno toque. Ninguém aparece em cena. Os personagens principais e secundários parecem ter adormecido num sonho de encantar e o tempo, controlado por pequeno relógio de bolso deixado ao acaso no chão, segue alegre ao ritmo acelerado da orquestra. A cortina começa a descer, mas os espectadores agarram as cordas e sobem ao palco onde se instalam confortavelmente no primeiro tufo de relva vago que encontram. A acção começa onde onde a história devia acabar.
Liliana Lima



"Vêm de dentro repelidos
Conforme o seu destino a sua cor varia
pois escolhem a base de acordo com
a luz que o rosto cria

À frente da cortina enfrentam
o vazio que lhes dava guarida
Em sepulcros abrigam
as faces atingidas

No palco deambulam como num
tempo estreito entre duas crateras
a que na sua frente lhes recolhe os soluços
e o nada donde vieram"

"Os actores" de Gastão Cruz, in "As Leis do Caos"