segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Ajuda-me a abrir o armário, António...

Aquele armário branco, com portas de vidro recortado em madeira e gavetas de vários tamanhos, é onde guardo os tesouros e os medos. Cada um bem embrulhado numa rede fina de tempo que se vai tecendo conformegiram os ponteiros do relógio da torre da estação.

Nas gavetas estão pequenas lembranças, sentimentos arrebatadores, brilhantes manhãs em que o sol esteve mais forte, noites estreladas de verão, tardes de chuva com chá e uma manta, um sorriso, um abraço, um olhar, uma mão que se estende, uma criança que se mexe dentro de nós, um nevão de folhas amarelas, palavras que se juntam, conjugam e rimam.

Nas portas de vidro recortado em madeira pintada de branco, dentro de dossiers fechados, numerados e catalogados, estão as mágoas as lágrimas que não quero lembrar, as feridas saradas e as que ainda sangram, os passos que não fui capaz de dar e os que dei a mais, dossiers fechados a que já não quero voltar.

Aquele armário branco é a minha história, contada em parcelas, que se interligam por fios condutores - pequenas estradas amarelas que se enrolam em volta dos anos que passam a um ritmo tão inconstante como o passar do tempo. Os tempos demorados que nos fazem esperar eternidades pelo final da manhã tecem fios finos de um amarelo claro, quase branco. Os tempos irrequietos, que nos fogem por entre os dedos e parecem esfumar-se em poucos segundos fiam novelos grossos amarelo-torrado, quase laranja.

Abro uma gaveta de baixo, pequena, quase imperceptível. Os fios amarelo-torrado amontoam-se à volta dela como um casulo que, cuidadosamente, desenrolo. Num piscar de olhos um abraço em silêncio os teus olhos o teu cheiro... voando como borboletas coloridas por entre outros dias e outras horas. Os ponteiros do relógio da torre da estação avançam e logo o silêncio, este baço, cinzento, povoado pelos barulhos indiferentes duma cidade em movimento, me levam de volta ao meu armário branco onde embalo de novo a gaveta nos fios do tempo e a recoloco no seu lugar, para outro dia reviver...

Liliana


"Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol - verdade,
respiração apenas.

Amor, sei que vives
num breve país.

Estou vivo e escrevo sol"


"Teu corpo principia" de António Ramos Rosa

in "Matéria de Amor"

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Sou feita de várias palavras, António...


Sou feita de várias matérias, compostos químicos que se degladiam pela liderança. Se choro em silêncio é porque sei que ninguém virá aconchegar-me os cobertores de lágrimas numa cama de esperança.
E por isso corro. Corro para te secar as lágrimas que choras nos dias de nevoeiro.
E por isso velo pelo teu sono, para que sejas sempre capaz de imaginar um admirável mundo diferente.
E por isso te acolho antes que chores, para que durmas tranquilo.
E por isso, também a ti, te pinto o céu com arcos e te conto histórias de vidas coloridas.

E, talvez por isso, me sinto assim, vaga, estranha numa casa de família, abandonada até por mim.

Sou feita de muitas estrelas, constelações e luas que giram em redor de um planeta talvez longe da Terra. Se canto durante o dia é porque à noite me vejo nua debaixo do luar procurando o meu lugar.
E por isso te conforto, para que te sintas em casa em mim.
E por isso te pergunto, te interrogo, te pressiono, para que não percas o impulso vital de agir.
E por isso te acolho nas birras, nas zangas, mesmo até quando me cansas, porque te sei só e te quero embalar.
E por isso, sim, forço-me a regar as flores para que não morram e continues a ter primavera no inverno.

E, talvez por isso, tantas vezes me veja correndo atrás de ti e de ti, sem perceber que o faço por mim.

Sou feita assim, de palavras, gritos que silencio e depois canto em sorrisos, esforçando-me por distribuir o seu fugaz brilho, não para recolher os frutos, mas para não deixar apagar o fogo que crepita no mais fundo de ti e te faz acreditar sorrindo. E então, a parte mais colorida de mim possa surgir alegre, real e solar, sem truques nem feitiços, apenas eu, feita de várias matérias....

Liliana


"As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.

Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que olhos brilham?
Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.
(...)"

"Poema" de António Ramos Rosa

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Estou perdida na areia, João...


Voo num voar tão baixo como me é possível. Voo rasteira ao chão, à areia da praia, ao mar que rebenta em pequenas ondas. Voo para não me perder. Voo em círculos sem conhecer a rota. Voo para não me deixar ver, sem me querer intrometer numa praia que não sei minha. E voo, sem eira nem beira, apenas para continuar, apenas para não me deixar parar.

Deito-me na areia molhada, húmida ainda, de um mar aparentemente tão afastado que chego a duvidar se algum dia aqui chegou. Deito-me na areia e fixo o sol, também ele deitado no mar, deixando-se embalar. Deito-me para não me perder, para não avançar por onde me posso magoar. E deito-me na areia para descansar dum voo que acabou de começar.

Fecho os olhos para ouvir melhor o mar, que se afasta, que me foge por entre as lembranças que vejo marcadas na areia. Fecho os olhos, perdida, cheia de medo de me afogar numa onda que eu própria(?) criei e que não vejo à praia chegar.

Deixo-me levar pelo vento, pelo mar, pela areia e voo, num voar interno. Já não me perco. Já não tenho medo. Já não vejo a maré alta. Voo dentro mim e vou para onde quiser. Voo sem me levantar, voo de olhos fechados, voo a sonhar, perdida na areia...

Liliana





"Anoiteceu
no meu olhar de feiticeira,
de estrela do mar, de céu, de lua cheia,
de garça perdida na areia.

Anoiteceu no meu olhar,
perdi as penas, não posso voar,
deixei filhos e ninhos,
cuidados, carinhos, no mar...

Só sei voar dentro de mim
neste sonho de abraçar
o céu sem fim, o mar, a terra inteira!
E trago o mar dentro de mim,
com o céu vivo a sonhar e vou sonhar até ao fim,
até não mais acordar...

E então, voltarei a cruzar este céu e este mar,
voarei, voarei sem parar á volta da terra inteira!
Ninhos faria de lua cheia e depois,
dormiria na areia..."

"Graça Perdida" de João Mendonça
Interpretado por Dulce Pontes

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Sabes o que me espera, Zeca?

De não saber o que me espera, de esperar em vão o eco das minhas palavras, enrolo-me em mim mesma, bicho de conta que fia o seu colchão com as linhas dos seus medos.

De não saber qual a linha certa do horizonte para que me hei-de dirigir, enfolo as velas e sopro um vento sem norte, à deriva no meu mar.

De não saber de que cor se tinge o sol nos dias de guerra, que nascem já mortos pela madrugada, procurei sem parar as imagens floridas duma primavera por chegar.

De não saber fugir às sombras que me perseguem, pedi ao relógio que as horas corressem, mas vi-me, sem a sua ajuda, sózinha à espera da calma na maresia.

De não saber o que me espera, decidi largar o balão e voar bem alto, planar pelas nuvens, espreitar as cidades e, lá bem de cima descobri que não há uma só meta e, para qualquer uma delas, não há apenas uma estrada certa...

Liliana



"De não saber o que me espera
Tirei à sorte a minha guerra
Recolhi sombras onde vira
Luzes de orvalho ao meio-dia

Vítima de só haver vaga
Entre uma mó e uma espada
Mas que maneira bicuda
De ir à guerra sem ajuda

Viemos pelo sol nascente
Vingámos a madrugada
Mas não encontramos nada
Sol e água sol e água

De linhas tortas havia
Um pouco de maresia
Mas quem vencer esta meta
Que diga se a linha é recta"


"De não saber o que me espera" de José Afonso
in "Fura Fura", 1978

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

De quem é este coração, Fernando?!

Sabes aquela caixa pequena, de cartão castanho com uma fita rosa que enrolava em volta e fechava num lacinho? Preciso dela.

Traz-ma num instante que tenho de conter esta onda que me invade dum silêncio que não sei ler.
Traz-ma depressa que o frio espalha-se pelo corpo e me tremem as pernas com o aproximar deste vazio que me atormenta.
Pego na caixa com a fita pendurada e embrulho o meu coração neste pequeno mundo castanho onde nada o abala.

Se ao menos a fita fechasse a caixa, o coração salvo dos abalos e das ventanias.
Se ao menos a caixa vedasse o som, o coração desconhecia o barulho ensurdecedor do silêncio que me obriga a tapar os ouvidos e enxaguar os olhos.
Se ao menos a caixa confortável, o coração não se sentia apertado, contorcido entre os avanços e recuos da vida.

Sabes da caixa pequena de cartão castanho e fita cor-de-rosa que usavas quando eras pequena para afastar os pesadelos, para reconhecer a realidade no meio dum ciclone, para te reconhecer por entre as várias imagens reflectidas no espelho?
Lembras-te como apertavas o coração na mãos até o encaixar lá dentro, depois com muito cuidado, enlaçavas a fita cor-de-rosa e, num instante, te sentias tranquila, segura e destemida. Lembras-te?

Traz-ma depressa para que os sonhos não acordem e sobressaltem a realidade.

Liliana



"Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém."

"Sonho. Não sei quem sou" de Fernando Pessoa

in "Cancioneiro"

domingo, fevereiro 20, 2011

Leva-me ao teatro, Harold...


Sou invisível. Não me vêem ou ouvem. A acção decorre longe de mim e não sou eu quem controla a porta para o palco.

Os actos sucedem-se sem a minha intervenção, só tenho parte do guião e quanto às outras, desconheço-as. Vivo assim, a história em episódios salteados, inventando coerências, criando fios-condutores que podem estar a anos-luz do verdadeiro sentido da peça.

Chamo-te para que abras as cortinas ou me deixes sentar em frente do cenário. Nada é o que parece, ou talvez até seja, mas eu não o posso saber. Não me respondem, cada um desempenha o seu papel num palco, em cenários longínquos.

Às vezes encontramo-nos entre dois actos e, no curto intervalo entre cenas, despimos os personagens e olhamo-nos sem medos. Mas os ponteiros seguem, e as entradas, cronometradas pelos olhos dos figurantes, devem ser cumpridas para não comprometer as peças em cena. Voltamos aos palcos, distantes, e seguimos as falas que o ponto nos dita.

Nas cenas más, desligamos dos outros, para não os envolvermos ou perdermos o rumo do nosso próprio personagem. E é então, a sós, que lutamos com nossos adamastores e moinhos de vento.

Até o próximo intervalo...
Liliana




"Mas a verdade verdadeira é que, na arte do teatro, não há nunca uma verdade única que possamos encontrar. Há muitas. Estas verdades desafiam-se mutuamente, fogem, reflectem-se, ignoram-se, espicaçam-se, são insensíveis umas às outras. Às vezes pensamos que temos a verdade de um momento na mão, e depois ela escapa-se-nos por entre os dedos e desaparece."

Harold Pinter

"Discurso de Aceitação do Prémio Nobel"

sábado, fevereiro 19, 2011

Como chegar ao longe, Robert?

Nunca tão perto e, no entanto, tão longe...
As margens cruzam-se em pequenas penínsulas, lagos de consolo, isoladas da corrente que embate nas pedras e revolve o fundo turvando as águas.
Abre-se a janela à força do vento e o teu cheiro invade a sala, palavras que saltitam por entre as memórias projectadas no tecto e se fazem ouvir em pequenos ecos que me embalam a alma.

Nunca tão perto e, no entanto, tão longe...
Encruzilhada de ideias, as estradas que se separam e dividem em pequenos caminhos por ladrilhar. Procuro os tijolos e tento construir um caminho pessoal, único e verdadeiro, mas o terreno baloiça, desajuda nas covas e lombas e acabo cansada e sem fôlego.
As janelas batem e volto à sala onde, sem êxito, procuro reparar as rachas das paredes brancas.

Nunca tão perto e, no entanto, tão longe...
Enrolo-me num casulo de lã, cobertores que teço ao ritmo da lua que enche e desaparece.
Acordo no meio duma noite escura, com esforço abro as asas e saio pela janela num voo de borboleta em busca de luz. Não há lua, as estrelas fogem-me, bato as asas num frenesim absurdo até perder as forças e pousar na margem mais tranquila.

Nunca tão perto e, no entanto, tão longe....


Liliana
"Pois, em verdade, o cavaleiro era o ribeiro. Ele era a Lua. Ele era o Sol. Podia agora ser todas essas coisas ao mesmo tempo, e mais ainda, porque estava em uníssono com o universo.
Ele era amor."
Robert Fisher
in "O Cavaleiro da armadura enferrujada"

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Não chores Cecília...

Não te magoes.
Não te envolvas.
Não chores!
Não sintas.
Não fales.
Não te mostres.
Não olhes.
Não chores!
Não oiças.
Não penses.
Não perguntes.
Não magoes.
Não desejes.
Não chores!
Não esperes.
Não ouses.
Não sonhes.
Não falhes.
Não faltes.
Não chores!
Não te apoies.
Não respondas.
Não decidas.
Não chores!
Não pares, avança...
Não chores!
Não te curves, corre...
Não chores!
Não te queixes, vai...
Não chores!
Não chores!
Não chores!


Liliana



"Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos.

Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caido."

Cecília Meireles (Elegia 1933-1937, 1)

in Antologia Poética

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Arrisco Pablo?!

Acedo »» aceito «« permito »» autorizo
Decido «« arrisco »» avanço «« ouso



Acedo? ----- Decido...
Aceito?! --- Arrisco!
Permito? -- Avanço...
Autorizo? -- Ouso!

Ouso? ------ Aceito.
Arrisco... ------ Acedo?
Avanço! -- Autorizo...
Decido? ---- Permito!

Talvêz só ouse aceitar. Quem sabe, às vezes, decido aceder... Normalmente avanço, permitindo. E, quando arrisco, quase sempre autorizo...

Liliana



"(...)
Onde está a criança que fui,
vive dentro de mim ou morreu?

E quem ficou a viver por mim
quando dormia ou estava doente?

E que importância tenho eu
no tribunal do esquecimento?

Em que janela fiquei
a olhar o tempo sepultado?

Ou o que olho de longe
é o que ainda vivi?
(...)"
Pablo Neruda in "Livro das Perguntas"

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

O que há no fundo do poço, Etty?


Há em mim um poço, fundo, de onde nascem os medos se levantam os fantasmas e que se alimenta da inquietação.
Há dias em que tapo, cuidadosamente, a entrada escura com um manto de flores que apanho nos campos confiantes e férteis.

Dias há em que o vento se rebela e num sopro forte, ondula os campos e espalha as flores desordenadas pelo chão frio de uma casa desarrumada.
Nesses dias, em que não encontro o arco com que me pinto e salpico a vida, sinto uma força imensa que me chama para esse buraco escuro onde me sinto cair, Alice num mundo desencantado.

Sei da luz com que, por vezes, ilumino as noites e até da serenidade com que, de tempos a tempos, consigo viver, mas oiço apenas o vento a soprar...
Sei das cores e dos lagos e das flores que em mim vivem, mas sinto apenas a dúvida, a prisão, a força que me falta...
Sei dos cânticos e das danças e das palavras que em mim moram, mas vejo apenas o vazio, o silêncio e a solidão...

Quem dera... Quem dera saltar por cima dos medos e no fundo do poço encontrar, apenas o meu reflexo num espelho de distorcer, como os das Feiras, dar a volta e perceber o truque, entender as razões e rir comigo própria... Quem dera... Quem dera descer e encontrar o fio-condutor que me faz falta para equilibrar a bússola e descobrir o caminho de volta... a mim.

Há em mim um poço tão fundo, tão escuro, que não me atrevo a desenterrar o que lá está com medo da dor que me pode secar.

Seria esse o segredo para todas as perguntas?...

Liliana



"Dentro de mim há um poço muito fundo. E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterrado. Então é preciso desenterrá-lo."

(Etty Hillesum in Diário - 26/8/1941).

domingo, fevereiro 13, 2011

Viste hoje o mar a transbordar, Fausto?!

Hoje o mar entrou pelo meu rio dentro, misturando as águas, revolvendo as ondas, embatendo nas margens.
Hoje o mar entrou pelo meu rio e fez a a corrente andar ao contrário, e de mim barca perdida que vai da foz à nascente.
Hoje o mar entrou no meu rio, em pequenas gotas salgadas que se diluíram, tingindo o leito com cores que desconheço.

No meio da maré, perdi a menina que cantava alegre entre as portas da sala. A agua varreu os sonhos, encantos que flutuaram pelo meio de bonecas, vestidos e laços. E o sal secou os sorrisos que lembravam outro rio, de água doce e cristalina, por entre carinhos e mimos de criança.

O mar não pediu licença, quando entrou pelas janelas da sala abertas em par, para o sol que iluminava a criança encantada. O sal colou-se-lhe à pele e as mãos secas obrigaram-na a crescer, crescer, envelhecer... antes mesmo de encontrar o tal do planeta de onde, jurava, ter vindo.

Hoje o mar entrou pelo meu rio e as ondas bateram nas rochas e levantaram-se no céu.

Pedi-lhe de mansinho que se afastasse. E ele, quem sabe com pena, quem sabe por amor, retomou a corrente e voltou ao seu leito, de mansinho, como quem pede desculpa. Repôs a menina, as janelas, e até as cantigas alegres no ar. Mas os sonhos, esses, escorreram salgados dos meus olhos embaciados...
Liliana





"Meu amor adeus
Tem cuidado
Se a dor é um espinho
Que espeta sozinho
Do outro lado
Meu bem desvairado
Tão aflito
Se a dor é um dó
Que desfaz o nó
E desata um grito
Um mau olhado
Um mal pecado
E a saudade é uma espera
É uma aflição
Se é Primavera
É um fim de Outono
Um tempo morno
É quase Verão
Em pleno Inverno
É um abandono
Porque não me vês
Maresia
Se a dor é um ciúme
Que espalha um perfume
Que me agonia
Vem me ver amor
De mansinho
Se a dor é um mar
Louco a transbordar
Noutro caminho
Quase a espraiar
Quase a afundar
E a saudade é uma espera
É uma aflição
Se é Primavera
É um fim de Outono
Um tempo morno
É quase Verão
Em pleno Inverno
É um abandono"

"Porque não me vês" de Fausto

in Por este rio acima

sábado, fevereiro 12, 2011

Não sei se devia...

Não sei se devia...

Não sei se devia olhar para o espelho emoldurado a azul escuro, na parede do fundo em cima do móvel.
Não sei se devia ouvir o que búzio sussurra deitado na cama de areia e pedras que me magoam os pés enquanto avanço pela praia.
Não sei devia espicaçar a vontade e planar pelas núvens recortadas no céu de verão.

Não sei se devia...
Não sei se devia provar o bolo, lamber o dedo com a cobertura de chocolate e as pepitas coloridas.
Não sei se devia sonhar com a lua e tentar apanhá-la com uma rede enquanto passa de nova a cheia, pelo meio das estrelas cadentes.
Não se devia espreitar pela fechadura da porta mais pequena que dá para o jardim, onde o as horas fogem do coelho.

Não sei se devia...
Liliana


quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Imagina Tom...

Imagina...
Sim tu.
Imagina comigo que a cidade não nos volta as costas nas noites de lua nova.
Imagina... faz este exercício comigo e tenta visualizar as mãos que se dão, corpo e alma num abraço que se partilha.

Vamos, imagina.
Imagina que é possível.

Imagina que o amor pode, de facto, voar como balões coloridos enchendo o céu num jardim primaveril.
Imagina, que tu, que eu, nos podemos dar, sem medos nem assombros nem pudores do outro que passa ao nosso lado, porque o outro - eu, tu - também se dá, em verdade.

Agora imagina, que à nossa volta outros que também sabem imaginar.

E então imagina...
Sim, tu.
Imagina a força que teremos ao permitirmo-nos sonhar...

Liliana






"Imagina
Imagina
Hoje à noite
A gente se peder
Imagina
Imagina
Hoje à noite
A lua se apagar
Quem já viu a lua cris
Quando a lua começa a murchar
Lua cris
É preciso gritar e correr, socorrer o luar
Meu amor
Abre a porta pra noite passar
E olha o sol
Da manhã
Olha a chuva
Olha a chuva, olha o sol, olha o dia a lançar
Serpentinas
Serpentinas pelo céu
Sete fitas
Coloridas
Sete vias
Sete vidas
Avenidas
Pra qualquer lugar
Imagina
Imagina

Sabe que o menino que passar debaixo do arco-íris vira moça, vira
A menina que cruzar de volta o arco-íris rapidinho vira volta a ser rapaz
A menina que passou no arco era o
Menino que passou no arco
E vai virar menina
Imagina
Imagina
Imagina

Imagina
Imagina
Hoje à noite
A gente se perder
Imagina
Imagina
Hoje à noite
A lua se apagar"
"Imagina" de Tom Jobim

domingo, fevereiro 06, 2011

Agarra o arco-íris comigo, David...

O arco-íris brilhou no céu enquanto as nuvens se afastaram abrindo espaço aos pássaros que, em seta, voaram para desocupar o azul do céu e deixar aquecer o sol. Em toda a cidade os carros saíram mais cedo, para as desimpedir as ruas e arejar as praças. Nos jardins todas as flores se pentearam e as árvores, espalhadas por terras e canteiros, sacudiram os troncos e esticaram os ramos tensos para aprimorar a decoração. O rio estava calmo - os barcos deixaram de passar, e as pequenas ondulações espelhavam a luz do sol para adornar a maquilhagem. As crianças nas escolas, os motoristas de táxi, os polícias nas estradas, as pessoas redopiando nos seus afazeres, tornaram-se uma mancha indistinta, indetectável no meio dos prédios para não estragar a pintura.

Eles saíram, despreocupados. Falavam dos nadas que, afinal lhes diziam tudo, um sobre o outro. Saíram e não deram conta do céu limpo, das ruas desertas, dos jardins floreados. Vinham apenas os dois, num mundo só seu onde nunca houvera outros alguéns para além deles.

Chegados ao rio ouviram o silêncio que a cidade, vaidosa, cantava para eles. Um vazio onde nada mais parecia existir se não eles no meio dos seus tudos, nadas afinal, que iam dizendo sem pensar muito.

O sol, em sinal de respeito, retirou-se devagarinho levando os reflexos luzidios e ralhando à lua que, teimosa, insistiu em ficar e espreitar. A noite, embrulhada num enorme vestido de seda escura, dançou com eles. Ali ficaram, acompanhados pelo rio calmo, a lua, a noite e as estrelas, que lhes davam a sensação de imensidão e eternidade dum espaço tão único como íntimo.

Chegada a hora certa, o sol levantou o vestido da noite e espreitou de mansinho, como quem vela o sono de uma criança. A lua, cansada, deitou-se com as estrelas e, aos poucos, o céu foi clareando em sinal de um novo dia que nascia.

Ele, deitado na relva, acordou com a festa duma folha caída da árvore que lhes embalara os sonhos. Olhou em volta e não a viu... esfregou os olhos, levantou-se e chamou-a por entre os barulhos surdos da cidade que já acordara e, a toda a volta, se contorcia para apanhar o tempo "perdido".

Ela não estava, nem ali nem em lado nenhum. Baralhado, chegou a pensar se não passara de um sonho, uma invenção engenhosa para sair da solidão. Olhou mais uma vez para o rio, para o sol, para relva onde dois corpos estavam ainda marcados... ao seu lado, um sapato vermelho. O sapato dela que ficara para trás.

Guardou o sapato vermelho consigo, sem coragem de o experimentar às raparigas da cidade. Mas, de cada vez que arco-íris brilha no ar, enquanto as nuvens se afastam, ele corre até ao rio e, com ela, fica no silêncio que a cidade, vaidosa, canta para eles.

Liliana

"In this little town
cars they don't slow down
The lonely people here
They throw lonely stares
Into their lonely hearts

I watch the traffic lights
I drift on Christmas nights
I wanna set it straight
I wanna make it right
But girl you're so far away

Oh, hold still for a moment and I'll find you
I'm so close, I'm just a small step behind you girl
And I could hold you if you just stood still

I jaywalk through this town
I drop leaves on the ground
But lonely people here
Just gaze their eyes on air
And miss the autumn roar

I roam through traffic lights
I fade through Christmas nights
I wanna set it straight
I wanna make it right
But man you're so far away

Oh, I'll hold still for a moment so you'll find me
You're so close, I can feel you all around me boy
I know you're somewhere out there

Oh, hold still for a moment and I'll find you
You're so close, I can feel you all around me
And I could hold you if you just stood still
Oh, I'll hold still for a moment so you'll find me
I'm so close, I'm just a small step behind you
I know you're somewhere out there"

"Hold still" de David Fonseca
(cantado com Rita Red Shoes)

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Vem navegar no silêncio do meu rio, Alberto...

Trago em mim um imenso rio que corre, sempre silenciosamente, em direcção a um mar que desconheço. Sorrio e choro, invento, sempre que coro, se me exponho ou me embrulho, de cada vez que, intencionalmente, me mostro e dispo, é na foz desse silêncio que me encontro, e depois de tanto barulho que luto por não ver, te procuro.

Trago em mim um silêncio que segue nas águas do meu rio. Silêncio gelado que corta e queima no frio absoluto dum abismo que é foz, manhã velada, nevoeiro escuro, onde me perco e grito, sem voz, os medos que ali nadam e, em mim desaguam.

Chegaste um dia, ao entardecer quando o céu está laranja e as nuvens rosadas, vieste numa barca trazida por um vento que falava de mar de sol de praia e, num abraço tranquilo, silenciaste-me os medos.

Ensinas-me a ouvir as águas deste meu rio, e no silêncio do seu leito deixar os medos navegar. Ensinas-me a esperar pelos tempos, que atrás de outros hão-de vir, e nas margens depositam sentimentos histórias momentos, que em forma de palavras poemas e canções pedem para ser vividos.

Procurei uma noz para no rio te acompanhar, e dentro dela me aventurei nas águas, ora revoltas ora calmas, ora sentidas ora esquecidas, ora amedrontadas ora aventureiras... e percebi que os medos me espreitam, de quando em vez me assustam, às vezes me soltam e me deixam voar, planar num mundo feito de tudo e de nada, onde afinal o importante é mesmo, navegar, navegar....

Liliana


Com "O Tejo é o mais belo rio" de Alberto Caeiro como pano de fundo.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Onde, José?

Onde nos vamos encontrar? Neste mar de horas marcadas e agendas mais que abusadas? Aquele dia livre que boiava no rio já se afundou com o peso das obrigações. Viste a gaivota que o olhava, desconfiada? Perguntou-lhe "quem és?", "sou o tempo esquecido" respondeu-se o dia, mas logo a sua voz fez vibrar as folhas, escritas riscadas e rabiscadas da agenda e, um segundo o engoliu no meio dos pendentes que ficam sem dia nem hora nem data marcada.

Onde nos vamos encontrar? Se a cidade não pára e as crianças logo de manhã com bibes coloridos e lancheiras recheadas por entre e os carros mal-dispostos e os barcos apressados e os comboios apinhados que não deixam passar os minutos, sem o burburinho de quem já nem procura o sentido do tempo numa maré de afazeres.

Onde nos vamos encontrar? Se o silêncio não tem hora nem dia nem espaço para se fazer ouvir e, calmamente se instalar, manto tranquilo que aconchega e acolhe e embala? Dizemos contrapomos discutimos repetimos defendemos e argumentamos, mas não olhamos, não ouvimos, não sentimos, não tocamos. Não há tempo.

Onde nos vamos encontrar? Para, fora do tempo, nos olharmos sentirmos tocarmos ouvirmos e, provavelmente em silêncio, descobrirmos o tanto que temos para nos dar?!

Liliana


Com "Eu vim de longe" de José Mário Branco
como pano de fundo