domingo, fevereiro 20, 2011

Leva-me ao teatro, Harold...


Sou invisível. Não me vêem ou ouvem. A acção decorre longe de mim e não sou eu quem controla a porta para o palco.

Os actos sucedem-se sem a minha intervenção, só tenho parte do guião e quanto às outras, desconheço-as. Vivo assim, a história em episódios salteados, inventando coerências, criando fios-condutores que podem estar a anos-luz do verdadeiro sentido da peça.

Chamo-te para que abras as cortinas ou me deixes sentar em frente do cenário. Nada é o que parece, ou talvez até seja, mas eu não o posso saber. Não me respondem, cada um desempenha o seu papel num palco, em cenários longínquos.

Às vezes encontramo-nos entre dois actos e, no curto intervalo entre cenas, despimos os personagens e olhamo-nos sem medos. Mas os ponteiros seguem, e as entradas, cronometradas pelos olhos dos figurantes, devem ser cumpridas para não comprometer as peças em cena. Voltamos aos palcos, distantes, e seguimos as falas que o ponto nos dita.

Nas cenas más, desligamos dos outros, para não os envolvermos ou perdermos o rumo do nosso próprio personagem. E é então, a sós, que lutamos com nossos adamastores e moinhos de vento.

Até o próximo intervalo...
Liliana




"Mas a verdade verdadeira é que, na arte do teatro, não há nunca uma verdade única que possamos encontrar. Há muitas. Estas verdades desafiam-se mutuamente, fogem, reflectem-se, ignoram-se, espicaçam-se, são insensíveis umas às outras. Às vezes pensamos que temos a verdade de um momento na mão, e depois ela escapa-se-nos por entre os dedos e desaparece."

Harold Pinter

"Discurso de Aceitação do Prémio Nobel"

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