quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Sabes o que me espera, Zeca?

De não saber o que me espera, de esperar em vão o eco das minhas palavras, enrolo-me em mim mesma, bicho de conta que fia o seu colchão com as linhas dos seus medos.

De não saber qual a linha certa do horizonte para que me hei-de dirigir, enfolo as velas e sopro um vento sem norte, à deriva no meu mar.

De não saber de que cor se tinge o sol nos dias de guerra, que nascem já mortos pela madrugada, procurei sem parar as imagens floridas duma primavera por chegar.

De não saber fugir às sombras que me perseguem, pedi ao relógio que as horas corressem, mas vi-me, sem a sua ajuda, sózinha à espera da calma na maresia.

De não saber o que me espera, decidi largar o balão e voar bem alto, planar pelas nuvens, espreitar as cidades e, lá bem de cima descobri que não há uma só meta e, para qualquer uma delas, não há apenas uma estrada certa...

Liliana



"De não saber o que me espera
Tirei à sorte a minha guerra
Recolhi sombras onde vira
Luzes de orvalho ao meio-dia

Vítima de só haver vaga
Entre uma mó e uma espada
Mas que maneira bicuda
De ir à guerra sem ajuda

Viemos pelo sol nascente
Vingámos a madrugada
Mas não encontramos nada
Sol e água sol e água

De linhas tortas havia
Um pouco de maresia
Mas quem vencer esta meta
Que diga se a linha é recta"


"De não saber o que me espera" de José Afonso
in "Fura Fura", 1978
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