segunda-feira, agosto 29, 2011

...sozinha pela cidade.

Ela olhava de mansinho para o mundo. Com vontade de o embalar todo ao mesmo tempo, como quem pega num recém-nascido que, com falta da mãe, chora e procura um colo para tranquilizar o medo do abandono.

Ela sorria carinhosamente aos homens e mulheres, como quem sorri a uma criança que, assustada, precisa de um olhar cúmplice para acalmar.

Ela cosia bonecos de tecido com linhas de lã, como quem sara feridas com pensos e ligaduras, curando a pele e limpando o sangue para não tornarem a abrir.

Ela saía todas as manhãs bem cedo, para regar as flores, as plantas e as árvores da calçada, na esperança que mais rebentos florissem e o dia nascesse mais colorido.

Ela percorria as ruas da cidade à luz do luar, procurando pássaros caídos, cães abandonados, gente perdida, cuidando-lhes das asas, das dores, dos gritos silenciosos, enquanto os devolvia aos ninhos, mais quentes e acarinhados.

Ela olhava, embalava, sorria, acalmava, cosia, cuidava e acarinhava... sozinha pelas ruas da cidade.




Liliana

sexta-feira, agosto 26, 2011

Tanto silêncio, Maria...

Porque 'às vezes' é mesmo no meio de muita gente e barulho que conseguimos, de facto, ouvir o nosso silêncio.

Bem aventurados os que conseguem adormecer embalados pela sua paz interior...

Liliana


06-09-2006


“Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro o amor em teu olhar
É uma pedra
Ou um grito
Que nasce em qualquer lugar

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito
Ou sou uma pedra
De um lugar onde não estou

Às vezes sou também
O tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar

Às vezes sou também
Um sim alegre
Ou um triste não
E troco a minha vida por um dia de ilusão
E troco a minha vida por um dia de ilusão

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer
É uma pedra
Ou um grito
De um amor por acontecer

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou
E esta pedra
E este grito
São a história d'aquilo que sou “

Silêncio e tanta gente de Maria Guinot

terça-feira, agosto 23, 2011

Silêncio...

No silêncio que invade a sala
vindo com a brisa abafada e cinzenta que envolve o jardim
e entra pelas janelas escancaradas

reconheço memórias
palavras ditas
beijos trocados

reencontro vidas enlaçadas
zangas
corpos suados
nós que prendem
gritos que ainda ecoam nas paredes...

...e no silêncio que invade a sala.



Liliana


quinta-feira, agosto 18, 2011

É verdade...

Se a brisa te contar que suspiro às ondas lembrando o entrelaçar dos nossos olhos, não duvides.
É verdade.

Se o sol da manhã te entregar um beijo meu, aquele que gostaria de te dar, não te surpreendas.
É verdade.

Se a lua te sussurrar no sono que vagueio pelas horas escuras em busca do teu corpo, não lhe respondas...
Porque é verdade.
Mas quando o mar te banha e me devolve o teu cheiro, quero poder pensar que será para sempre, um pouco, meu.

É que, quando o vento te disser que te sorrio de longe ao imaginar-te feliz e tranquilo, não penses que mente.
Também é verdade.


Liliana




sábado, agosto 13, 2011

Boneca de trapos

Estava sentada a boneca num canto da sala, estava
sentada olhando o nada em que, todos os dias, mergulhava
De vestido franzido e faces rosadas, a boneca,
sem saber que o era, olhava o vazio não entendendo onde se perdera

Estava boneca, estava canto, estava vazia sentada na sala
Na verdade, nem sabia, que alguém poderia encontrá-la
Os sapatos e vermelhos e a fita amarela compunham a pintura
e ela, boneca sentada num canto da sala, o retrato perfeito da candura

A lua trepou sobre pano preto da noite, o vento soprou e os seus cabelos dançaram,
o mar rebentou e todas as águas do mundo ondularam
E a boneca, sentada, a sua sombra distorcida no lago olhou

O sol nasceu numa manhã ao acaso, e um cavalo de pau por ela passou
Espantou-se a boneca, e sentada num canto ao espelho espreitou
Viu o cavalo e o seu cavaleiro, viu o vestido franzido e as faces rosadas
Falou com o cavaleiro do cavalo de pau dos moinhos de vento e das muitas cruzadas,
reconheceu-se nessa urgência de fugir para não se aprisionar ao momento
e, aos poucos, boneca de trapos sentada num canto, levantou-se e dele se aproximou

Assustado o cavaleiro, abanou o cavalo de pau e perdeu-se na sua imensidão
Olhando pela janela a boneca viu-o cair e arrancando um trapo seu, correu para o ajudar
Fechou-se ainda mais o moinho com o seu cavaleiro, boneco sentado num canto, ainda a sangrar
Sozinha, na sua sala interior, a boneca preparou-se para ao vazio voltar

Estava sentada a boneca num canto da sala, estava
sentada, sonhando com os moinhos e aventuras que o cavalheiro lhe lembrara


Liliana

domingo, agosto 07, 2011

De que tens medo, Sérgio?!

Tenho medo... sobretudo do escuro, onde a vista se perde e os sentidos, em alerta, se confundem entre o querer e o perder. Por isso acendo os candeeiros da rua, mesmo quando o nevoeiro me impede de ver.

Tenho medo... sobretudo do silêncio que me imponho na procura duma janela que, penso, só eu poderei encontrar no isolamento total. E no entanto, tenho medo... do vazio da sala onde, sozinha, me enrolo sobre os joelhos e me embalo, para não ter... medo.

Tenho medo... dos não ditos e das omissões, que se misturam com a história e fazem nascer mil contos, tantas vezes criados e regados apenas com a minha imaginação.

Tenho medo... sobretudo de paralisar, por medo. Pôr o pé no travão, engatar a marcha-atrás, parar mesmo antes de começar a andar. Começo a viagem tão concentrada na forma certa de chegar à meta que quantas vezes, com medo de falhar, acabo por me perder no caminho.

Tenho medo... dos novelos que se desenrolam e se entrelaçam pelo chão, pelas minhas mãos, pelo meu corpo, numa mistura de cores onde me envolvo e me prendo mesmo antes de conseguir enfiar a linha na agulha para bordar o arco-íris.

Sim, tenho medos... E, nos dias bons, tenho muito medo, sobretudo quando não sinto... medo.

Liliana



"Eh! Meu irmão, o que é que tu tens
que tremes como um chouriço?
Eh, meu irmão que é que tens,
parece que viste bicho!
Um bicho vi, sim senhor
enroscou-se a mim e pediu-me amor
tinha corpo de mulher
cabelo encaracolado
beijou-me, apagou as luzes
e eu então gritei!
Ai, um bicho!

Eh meu irmão, que é que tens
estás branco que nem um nabo!
Eh, meu irmão, que é que tens,
parece que viste o diabo!
Vi mesmo, bateu à porta
disse que o povo estava na rua
e que a rua era do povo
que é p’ra quem ela foi feita
e o povo somos nós todos
e eu, então gritei:
Ai o diabo!

Eh, meu irmão, que é que tu tens
estás branco como o jasmim!
Eh, meu irmão que é que tu tens
o que é que te pôs assim!
Foi o medo da água fria
o medo da vida, o medo da morte
o medo da lua cheia
o medo da lua nova
o medo até de ter medo
que me faz gritar
Ai, que medo!

E assim com medo de tudo
perdeu meu irmão a vida
e assim com medo de tudo
viveu-a e não foi vivida
meteram-no num caixão
às duas por três, num dia de Verão
desceram-no p’ra uma cova
deitaram terra por cima
espetaram-lhe uma cruz
ita missa est
Amen"

"Eh! Meu irmão" do Sérgio Godinho
(Pré-Histórias)

quinta-feira, agosto 04, 2011

O que me dói é a tua falta

Não me dói que não sejas meu
estou sempre contigo

Não me dói que estejas longe
trago-te sempre em mim

O que me dói é a tua falta

O que me dói é não sentir o teu cheiro
a ausência da tua mão
a distância dos teus olhos
o vazio do teu corpo no meu
a inexistência da tua respiração

O que me dói é a tua falta


Liliana