terça-feira, agosto 19, 2014

DEDOS


Movimetos lentos nas mãos que reconhecem a pele que afagam por entre as roupas que se deitam no chão antecipando os passos da dança que se segue. 

Dedos que dançam pelos recantos mais íntimos e se perdem na humidade quente dos corpos nus, cristalinos, reais.

Roupa que se afasta para o embalar do colchão que não tem norte apenas velas que se viram à força das vontades.

Desejos que se tornam tempestades de sentidos à pele em flor nos corpos que se fundem ao ritmo descompassado, descontrolado das marés vivas. . . .

. . . . . .


Movimentos lentos      Dedos que dançam      Humidade dos corpos

recantos

vontades

desejos

sentidos

corpos

ritmo

descontrolado

marés


. . . . . . .


dedos...



Liliana


 

quarta-feira, agosto 13, 2014

cor.redor


Este quarto ao fundo do corredor depois de passar a cozinha dentro do prédio de esquina enfiado entre duas ruas rodeadas de outros prédios.  

Este quadro, onde descansam perdidas e desorganizadas memórias dentro duma caixa escritas num caderno enfeitadas num colar vestidas numa blusa embrulhadas numa lingerie que amachuca os lençóis. 

Este é o quarto onde me sento no chão para não gritar ao mundo das cores do pôr-do-Sol que realçam o brilho do teu olhar quando damos as mãos. 

Este é o quarto onde mordo o lábio para não dizer o tanto que fica por dizer, mas que é mesmo assim.

Este é o quarto que me abraça quando espero em vão o beijo que não chega a vir.

Este é o quarto a quem escrevo dos momentos alegres das noites suaves e suadas da mão que procura a minha do cheiro a maresia da Lua que me olha e dos risos partilhados.

E este é o quarto onde vejo e revejo as lembranças projectadas nas paredes dos meus olhos e percebo que elas vivem apenas aqui, neste quarto ao fundo do corredor. 


Liliana


sexta-feira, agosto 08, 2014

eQuÍliBrÍo


Ando devagar entre os arbustos verdes ou secos
estou a aprender a caminhar sem perder o equilíbrio

Tenho o cesto cheio de palavras que preciso dizer
aprendo dia a dia a abafá-las no lápis na boca no teclado

Ainda me rói por dento prendê-las calá-las em mim
não sei processá-las assim, fechadas quase a sair
Doseio-as em caixas para não te inundar nelas
E no final do dia lá nos conseguimos entender
e dividir as boas das más que é sempre um acto
de interpretação e cumplicidade partilhadas

Ando entre os arbustos até ao cimo da arriba
daqui só se vê mar imenso azul espuma areia
daqui o vento só sabe cheira mar sal

Aqui é possível o silêncio



Liliana

quinta-feira, agosto 07, 2014

praia

Não me lembro de algum dia ter ido à praia sozinha, tirando esta tarde de Agosto envergonhado em que decidi, à falta de companhia, dar-me esse tempo só para mim.

O caminhar ao sol sem ninguém que salta à minha volta, o percorrer do trilho de madeira até ao cimo da arriba sem tropeções nem escorregadelas, o descer as escadas por entre as dunas de areia amarela sem zangas nem gritos nem a palavra "MÃE" gasta rebolando até à beira-mar...

Pensamentos e imagens que me acompanharam à praia e com os quais conversei até aceitar, não só a sensatez como a legitimidade de usar comigo este tempo.

Olho à minha volta e não oiço nada para além do mar que em segredo me chama, na espuma que dança o tango com as ondas e se deleita na areia para, com elas, voltar ao turbilhão da corrente.

Sou eu só, ali na areia quente para quem não tenho de me esconder nem aprimorar nem mascarar. Sensação esquisita esta de ser por completo. Pergunto-me se algum dia me sentirei assim, livre, entre as dunas das pessoas. E, com o vento a bater na minha toalha a bater em mim, vem-me à memória um outro mundo também de mares e de colinas e de ondas em espuma e de corpos deitados sobre a toalha-lençol, onde também aí dispo as máscaras e convenções, saio do esconderijo perco o medo e, sim, sou eu somente que me entrego.

Deito-me neste colchão de areia que espera por mim. Abro o livro, companheiros fieis de todas as caminhadas, e converso com Cesariny. Conversa difícil de iniciar, referências não muito distantes mas estilos longínquos e palavras desconexas que me baralham, 

não percebo que queres dizer...

e ele altivo divertido distraído

não percebes? Nem eu mas também não faz mal 
a salvação dos homens cães não passa por aí. 
Ou passará? 
           Talvez tenha passado 
                             no eléctrico que avisa a manhã.
Mas não, os homens cães estripados, apodrecidos 
nas bermas sujas desta
 cidade         imunda          navio 
podre sem carga a borrar o cais com as porcarias 
obscenas dos senhores foices
Mas tu, meu amor, para sempre bela...

Passo as apresentações mais abstractas e aqui e ali começo a perceber o fio à meada que tem nós e avanços e recuos mas nos liga (diria que a todos) naquilo que é a essência da arte poética "ter pessoas dentro" (roubei a um amigo, se ele se queixar logo se muda).

Cansa-me no entanto a conversa, onde só eu pareço esforçar-me para manter um certo fio condutor de lucidez. Despeço-me, voltarei a ti mais tarde, e troco o livro pelo horizonte límpido azul brilhante fresco do mar, que tento tocar numa carícia feita abraço feita olhar feita mergulho. Dura pouco no entanto este embalo. 

O vento chama lá de cima da encosta e as horas, inquietas, segredam-me que os papeis deixados em banho-maria precisam de ser novamente inventados e recriados para o pôr-do-Sol. Visto a saia preta que se levanta com o vento e a blusa branca com um coração, arrumo no cesto Cesariny e o livro e a toalha e estas duas horas sozinha na praia. A subida é íngreme e comprida até ao trilho de madeira que ainda me leva ao caminho até casa.

Vejo o mar a encolher e a areia marela ao fundo e vejo-me a mim também, subindo a arriba. Muito devagar vou vestindo os tropeções as escorregaldelas as zangas e os gritos. Dobrada com muito cuidado em cima do banco já de cimento já na estrada, a palavra "MÃE" que leio devagar e com todo o carinho de mãe até interiorizar o seu infinito significado.

Não me lembro de algum dia ter ido à praia sozinha, mas não faz mal. Quantos de vós já teve o privilégio de conversar descontraidamente na toalha de praia abanada pelo vento durante duas horas banhadas pelo cheiro e canto do mar com Cesariny?!?!

Liliana

quarta-feira, agosto 06, 2014

Auroras

Faz-me falta o teu sorriso
ainda que por um dia só
As horas arrastadas que passam
nas horas de estar só,
comigo, no fundo
mais fundo do fundo
da minha concha

Olho o horizonte com os olhos
semi-cerrados à procura dos teus,
aconchegados ao lado de uma ternura,
que me ofereces, mesmo sem saber,
na luz que sabes acender

Em mim,
no fundo
mais fundo
do fundo,
da minha
concha

Faz-me falta o teu sorriso,
nas horas que passam
à procura, aconchegadas,
do horizonte das auroras criadas
no colo da tua ternura.


Liliana