Dou-me a mão e subo mais um degrau
As paredes são frias mas macias
Sei que estou mais alta e sei que devo ficar feliz
Sinto o vento nos cabelos e o cheiro a mar
Quase que largo a mão para abrir os braços no ar
mas algo me impele a ficar, a parar, a estar apenas
Algo prende a águia que quer voar
e gritar a plenos pulmões que aqui estou
E dou-me a mão como se somente só estivesse bem
"Cá fora" tudo parece cinzento
como se capaz de infectar a alegria de aqui estar
Então contenho-a em mim
Guardo-a para que não entre em contacto com o exterior
E ela encolhe para caber cá dentro
E depois minga para não dar nas vistas
E um dia deixa mesmo de respirar
E eu dou-me a mão para me lembrar como era
Liliana
Afundo-me nas águas negras
das dúvidas, das inverdades dos dias.
São areias movediças com que me agarras
o corpo e prendes cada braço e cada perna.
Arrasto-me nesta estrada escura
onde tu és eu.
Tento encontrar o caminho certo,
a saída deste labirinto coberta com um véu.
Mas perco-me nas tuas garras
e afogo-me nos meus medos.
E afundo-me nas águas negras
das dúvidas, das inverdades dos dias.
Liliana
Vem devagar para não me assustar...
Vem, com verdade, com certeza
Vem, sem véus nem nevoeiros
Vem, sem medos nem hesitações
Vem devagar para não me assustar...
Vem, com uma flor, com um sorriso
Vem com tudo o que tem o teu mundo
Vem, dá-me a mão e aperta-a de mansinho
Vem devagar para não me assustar...
Vem, leva-me a passear
Vem, ajuda-me a acreditar
Vem, ensina-me a respirar
Vem devagar para não me assustar...
Vem!
Liliana
Espero-te
Lembrár-te-às que estou aqui?
Espero, aqui sentada nesta cadeira quente que, juntos, nos viu.
Espero sem saber se ainda te lembras que um dia a vida nos sorriu.
Lembrár-te-as que ainda sou em ti?
Espero-te.
Oiço a mesa do lado
viajo num mundo que não é meu,
visto uma personagem nova, diferente.
Invento uma vida e um dia e uma mesa para mim.
Saio da minha verdade e entro noutra qualquer.
Oiço a mesa ao meu lado
viajo para um mundo que não é meu.
Liliana
A minha vida não me quer a acreditar
mas a alma, essa, de tão determinada (encantada?!),
ah! a minha alma, essa, não se deixa pintar
e continua sempre e sempre a sonhar.
Por sobre todas as nuvens,
apesar de todos os contra-tempos,
minh'alma é sonhadora e voa com os ventos.
Posso prendê-la ao chão,
posso agarrá-la pela mão,
não deixa nunca de acreditar
e diz-mo sempre a gritar.
A minha vida não me quer a acreditar
mas a alma, essa, de tão determinada,
continua sempre e sempre a sonhar!
Liliana