segunda-feira, julho 27, 2009

Vem conversar comigo, Carlos...

Vem conversar comigo para que eu me oiça enquanto falamos e me entenda nas palavras que de mim saem.

Senta-te aqui bem pertinho, deixa-me embalar e ganhar confiança para me lançar. Depois conversa comigo, devagar, dando espaço para que eu me oiça bem.

Vem conversar comigo mas não fiques aí, espectador de um monólogo, ajuda-me a fazer as perguntas certas para que oiça as respostas que a mim mesma dou.

Senta-te aqui ao meu lado e fala tu agora, fala para que te oiças, pausadamente e com calma para que nenhuma palavra te fuja.

Vem conversar comigo que eu quero ouvir-te e na volta de cada frase perguntar-te o que perguntarias se contigo falasses.

Senta-te pertinho de mim para que consiga acolher cada palavra tua como se minha fosse, embalá-la e olhá-la de perto que "quem não vê olhos, não vê corações".

Vem conversar comigo para que, dando espaço às minhas palavras, abras caminho às tuas e, em conjunto, as vejamos voar e, por fim, oiçamos o que afinal nos querem dizer.

Senta-te ao meu lado e partilhemos palavras que é isso que os amigos fazem. Aprendamos um com outro a arte de repartir os silêncios certos, onde as palavras de cada um ecoam e se mostram despidas das entrelinhas que no barulho das luzes as deixam desfiguradas.

Liliana Lima




"Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre,
e minha procura
ficará sendo minha palavra."
"A Palavra Mágica" de Carlos Drummond de Andrade
in 'Discurso da Primavera'

terça-feira, julho 21, 2009

O tempo passa, Vinicius...

Havia três relógios na parede castanha ao fundo da sala, por cima da grande lareira. Um grande, com um aro prateado, fundo branco e os ponteiros finos, brilhantes. Outro robusto, com moldura de madeira e ponteiros largos, precisos. Por fim um mais pequeno, quadrado e fundo vermelho ligeiramente descorado. A sala era ampla, marcada pela lareira ao meio da parede do fundo pintada de castanho, que centralizava toda a atenção como um enorme umbigo. Todos os móveis estavam como que virados para ela e até os relógios, os únicos objectos pendurados a toda a volta, pareciam prestar-lhe homenagem.

Eles entraram na sala subindo os dois degraus de madeira que partiam de uma sala mais pequena à entrada. Escolheram uma mesa recatada, no canto, ao lado de uma janela com vista para o pátio. Ela olhou em volta e os seus olhos pararam na parede castanha com os três relógios. Os três funcionavam, mas estranhamente cada um marcava horas e minutos diferentes. Aquilo intrigou-a e por mais que tentasse, não conseguia abstrair-se dos ponteiros que avançavam aparentemente desordenados.

Conversaram sobre a lista, avaliaram os vários menus e decidiram-se por umas tostas e chá de menta. Pelo canto do olho ela ia espiando os relógios, como se esperasse uma falha ou um atraso por parte de algum. Sem conseguir esconder o interesse, acabou por chamar o empregado, impecavelmente vestido de branco com um avental também castanho e perguntou-lhe o porquê daquele desencontro de horas e minutos que tanto a baralhava. O empregado disse que não fazia ideia, e que tanto quanto sabia estavam assim desde sempre.

A questão parecia ter ficado por ali, ele que ainda nem tinha visto os relógios foi com ela até à lareira admirar os ditos, que alegremente continuavam a somar horas e minutos à desgarrada. Chegaram as tostas e o chá e eles voltaram para a mesa, inventando histórias malucas sobre os três relógios. Embora rindo e brincando com o assunto, a verdade é que ela não se conseguia afastar dos relógios e dos seus ponteiros desorganizados. Na verdade, e desde que entrara na sala, ela não conseguia pensar em mais nada a não ser nas horas e nos minutos que por ela passavam.

Sem saber bem como ou porquê, pareceu-lhe ver imagens de dias passados projectados nos vidros da janela. Conversas que tivera com ele intrometeram-se por entre as chávenas e o bule do chá. Sonhos e promessas que partilhavam saltaram por detrás do sofá jogando às escondidas com ela. Estava tonta, sentia-se baralhada, o tempo dela parecia ter-se soltado com os ponteiros dos três relógios. Aos poucos deixou de saber qual dos tempos era o real, se o que projectado que invocava o seu passado, se o que saltando pela sala lembrava os seus projectos de futuro. Quem era ela ao certo? Aquilo que escolhera, que fizera, que dissera ontem, há dois anos, há dez? Aquilo que, em conjunto com ele ou na paz do seu íntimo, imaginava para os dias que hão-de vir? No meio das horas que dançavam à sua volta, perdeu o seu fio-condutor, aquela linha do horizonte pela qual se alinhava como uma bússola que lhe indicava o norte (o seu norte).

Saiu correndo da sala, como quem precisa de ar para respirar e só passado algum tempo se sentiu novamente dona do seu tempo. Então percebeu que é sempre possível voltar atrás e olhar as escolhas que fizemos, à luz de um momento quiçá tão diferente do actual. Então percebeu que o importante não são os sonhos que projectamos no horizonte como uma meta a alcançar, mas a forma como vamos vivendo os dias que passam até lá chegar. Então percebeu que o tempo não corre atrás de nós, antes segue connosco numa aventura onde o importante é consegirmos ser apenas nós próprios.

Liliana Lima




"Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora
Passa, tempo
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado
Já perdi
Toda a alegria
De fazer
Meu tic-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac
Tic-tac
Dia e noite
Noite e dia"

"O relógio" de Vinicius de Moraes

sexta-feira, julho 17, 2009

Regressas no tempo, Casimiro?

Imagino um grande baú onde guardo o que a vida me trás nas ondas que na minha praia adormecem. Apanho os momentos e as lembranças, quais pedras preciosas com que enfeito as janelas.

Sais a correr do tempo que já passou. Sais a correr e paras no agora, mesmo a tempo de me encontrares no tempo que ainda há-de vir. Por pouco não te reconheço... Foi o tempo que passou que te mudou o reflexo, ou foste tu que passaste com o correr dos ponteiros?

Com muito cuidado abro o baú à beira mar e procuro os recortes em que te guardei. Entre risos e entrelinhas, sais num arco-íris de mil cores que falam de sol e do Tejo e me sussurram uma cantiga de embalar.

Passas por mim e olho-te com atenção. Vejo-te reflectindo o tempo que passou, aquele que é agora e o que ainda não começou. Afinal, com o cair da areia fina que marca o virar da ampulheta, também eu mudei.

Sentamo-nos à beira rio e reaprendemos a conversar. Já não precisamos de nos apressar, os ponteiros já não precisam de correr, a urgência perdeu-se no tempo.
Liliana Lima


(Foto de Nuno Lino Martins)


"O tempo a que sempre regressamos

e nos visita um instante

O tempo que depois destruímos

construímos e ali-

mentamos se nos

alimenta

O tempo onde a luz buscamos

e a morte sempre

encontramos"

"Tempo revisitado" de Casimiro de Brito

in "Mesa do Amor"

segunda-feira, julho 13, 2009

Porque fechamos janelas, João?

Porque é que fechamos as janelas em par e nos barricamos dentro de uma bola de sabão que distorce a realidade? Qual é o mecanismo que nos afasta do outro e nos impele a criar personagens de acordo com a história que pensamos viver?

Diz-me, tu que me lês nestas letras em curva, de quantas máscaras é feita a tua capa? Quantas vezes te escondes atrás de palavras vagas e opacas, como quem se defende ainda antes de ser atacado? Também te acontece dar contigo em conversas evasivas, mascarando tudo o que é sentimento e filtrando qualquer réstia de impulso de partilha? Alguma vez te aconteceu olhares o espelho de manhã e, por momentos, pensares estar em frente a outro alguém?

Às vezes penso que andamos todos às costas do que pensamos que os outros pensam de nós, que os outros esperam de nós, que os outros sentem por nós... enfim, quase esperamos que os outros sejam por nós.

Sim, eu sei que também já sofreste por, em tempos, te despires de tantos papeis. Sim, eu sei que quanto mais abrimos as janelas, mais água entra quando começa a tempestade. Sim, eu sei que também eu me escondo atrás destas verdades sempre tão verdadeiras. Sim, eu sei... mas que queres? Há dias em que me apetecia tanto ser apenas eu.

Será que se te disser, assim sem mais nada, que fiquei magoada, ou que tenho saudades, ou que me fazes falta, não me vou arrepender? Será que se eu te disser, assim sem mais nada, do que gosto, o que me faz sorrir, o que me assusta, o que me faz chorar, não vou ficar com a sensação de me ter despido enquanto te afastas de casaco, sobretudo e cachecol?

Porque é que fechamos as janelas em par e nos barricamos dentro de uma bola de sabão que distorce a realidade? Talvez porque um dia ousámos sair, abrir portas e janelas e inspirar o ar puro sem filtros nem maquilhagem mas o frio da rua desprotegida congelou-nos os pulmões, e a luz forte reflectida no rio fez-nos cerrar os olhos, e as portadas bateram e voltaram a fechar-se à força do vento.

Talvez... Mas talvez se não nos dermos espaço para sermos assumidamente nós próprios e rirmos apenas porque o sol nos pregou uma partida, ou abraçarmos quem se atravessa no nosso caminho, ou partilharmos o que sentimos com quem assim nos faz sentir... Talvez então, um dia, eventualmente um fim de tarde de outono quando as tardes esfriam e o sol, tímido, se esquece de esperar por nós... Talvez um dia, acabemos por esquecer quem éramos verdadeiramente atrás das janelas fechadas...

Posso contar-te um segredo? A ti que me lês nestas letras em curva? Hoje passou-me pela cabeça que, se calhar, a única forma de rebentar a bola de sabão sem cair redonda no chão, é mesmo abrir as janelas em par e ousar espreitar o mundo pelos meus olhos, sem máscaras ou enfeites ou papeis para decorar, apenas eu, tu e o mundo despido de janelas fechadas.

Assim de repente, parece-me que por muito que arrisque, e ainda que a chuva entre pela janela, ao menos ganho uma história para contar! E ou muito me engano, ou é isso mesmo que, atrás de cada janela fechada e dentro de cada bola de sabão que distorce a realidade, alguém sonha e espera, um dia, ganhar coragem para se vestir de si próprio e ousar viver...

Liliana Lima




"Trago-te ao espaço da janela.
De novo surgiram deste lado da rua.
Em voz baixa disse «uma alucinação». A
única resposta foi entrar em casa
subir ao quarto mudar de roupa
ser jovem com quem soube bem ser jovem
sábio com quem quiseste ser sábio
velho com os velhos.
Trago-te para perto da janela
o rio vê-se daqui.
A cor da terra circula.
«Talvez seja a morte» «não»
«se for a morte o coração baterá mais ou menos forte».
O corpo não tem grande lugar."

"Trago-te ao Espaço da Janela" de João Miguel Fernandes Jorge
in "Meridional"
*(Foto) Janela de Gaudi - Barcelona

terça-feira, julho 07, 2009

Sabes quem sou, Fernando?!

Ela acordou cedo. O dia estava alegre e a luz saltitava pelo quarto, brincando com os cortinados entre-abertos. Espreguiçou-se antes de se levantar e acendeu o rádio enquanto iniciava a delicada tarefa de escolher a indumentaria para o dia que ainda mal começara. Poderia ser um dia igual a tantos outros, mas na verdade, e apesar da aparente tranquilidade atmosférica, tudo naquele dia viria a estar bem longe da normalidade.

Foi ainda no duche, enquanto se ensaboava, que percebeu que lhe faltava algo. Despachou-se a enxaguar o corpo e saiu da banheira numa inquietação crescente. Correu para o quarto e, desdenhando a roupa que escolhera e que cuidadosamente colocara em cima da cama, abriu portas e gavetas, revoltou as prateleiras e o roupeiro e despejou a caixinha dos brincos e dos alfinetes com que reduzia os decotes mais atrevidos. Não encontrando no quarto o que lhe fazia falta, avançou pela casa enrolada apenas na toalha de banho, em busca de algo que tanto procurava debaixo dos sofás, como em cima do frigorífico e até nas malas de inverno, arrumadas na pequena dispensa ao lado da caixa dos medicamentos e dos pensos rápidos.

Chegou à porta da rua ainda sem ter encontrado o que quer que procurava. Estava cansada, os cabelos ainda molhados teimavam em escorregar-lhe cara abaixo e os pés descalços começaram a arrepiá-la. Resolveu voltar ao quarto e vestir a roupa anteriormente escolhida, sem grande entusiasmo. De alguma forma o sol, que há momentos brincava pelo quarto fora, parecia-lhe tristonho e sem força. Uma nuvem de inquietação invadiu o seu sorriso e o dia entristecia com ela.

Perdera-se. Não sabia como nem porquê, mas durante o duche matinal percebeu claramente que se tinha perdido e, por mais que procurasse e revirasse a casa, não se conseguia encontrar. Como poderia sair assim de casa? Um corpo oco e desabitado, percorrendo as ruas da cidade em busca da sua alma... Por outro lado se não era ali, em casa, que se podia encontrar, seria com certeza na rua, perto de quem a conhecia e a queria bem que poderia reaver a sua essência. Sim! Era isso, devia sair o quanto antes e procurar por si no seu círculo de amigos, eles seriam capazes de a encontrar!

Saiu num remoinho deixando para trás a confusão espalhada um pouco por toda a casa. Encontrou-se com todos os que responderam à sua chamada, contou-lhes da sua perda e pediu-lhes ajuda para reaver-se a si própria. Cada um deu o seu contributo, conheciam-na bem e nada mais fácil que lhe contar das suas características, dos seus gostos, das suas paixões e amarguras. Apontou tudo num caderninho como se não pudesse escapar nada de si que mais tarde lhe viesse a fazer falta. Identificou-se com tudo o que diziam a seu respeito, como se aos poucos se lembrasse de um antigo amigo de Liceu. Guardou no caderninho a sua postura confiante e decidida, acarinhou o seu carisma forte e altruísta, abraçou a sua paixão por poesia e cinema, cuidou das feridas dos amores desanimados e apertou a mão às suas opções profissionais.

No fim do dia sentia-se de novo inteira, tinha no seu caderninho tudo o que necessitava para se recuperar. Mas então porque continuava no ar aquele nevoeiro estranho que a impedia de ver a sua imagem completa? Por muito que lhe falassem de si, por mais que lhe explicassem como era, não se sentia dona de si. Por muito que lhe mostrassem o caminho para si, não se conseguia encontrar.

Voltou para casa ao fim do dia, já o sol se escondia atrás do horizonte e o céu preparava a cama para Lua em tons rosa, laranja e azul. Entrou desanimada, pousou a mala e o caderninho no chão e sem acender as luzes do corredor foi até ao quarto, fingindo não ver a desarrumação que em todo o lado lembrava um dia de procura em vão. Sentou-se aos pés da cama, em frente à cómoda escura de onde saiam pontas de soutiens, mangas de uma t-shirt vermelha e metade de umas calças de ganga já gastas, restos da luta matinal em busca do seu "eu" perdido. Em cima da cómoda, o espelho rectangular esforçava-se por lhe devolver o seu reflexo completo.

Olhou em frente e viu-se, estava preocupada e triste no meio de um caos interior muito maior do que o visível à sua volta. Fixou-se durante muito tempo, tentando descodificar os sinais que lhe pareciam inteligíveis. Levantou-se sem tirar os olhos do espelho e perguntou-se onde estava, porque se escondia de si, porque tinha desaparecido, como podia encontrar-se. Ficou muito tempo de pé, em frente ao espelho a falar consigo. Conversou durante tanto tempo como há muito não se lembrava de conversar com alguém. Aos poucos foi-se reconhecendo nos pequenos gestos, nas discretas entrelinhas, nas subjectivas verdades. Deitou-se na cama, cansada mas inteira e dormiu toda noite tranquila e feliz. Encontrara-se no mesmo local onde, afinal, estivera o tempo todo.

Liliana Lima





"Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber.
Se acordo Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém. "

"Sonho. Não sei quem sou" de Fernando Pessoa
in "Cancioneiro"

sexta-feira, julho 03, 2009

Conversas de loucos Álvaro, conversas de loucos...

- Se tens poderes mágicos, esta é uma boa ocasião para os usares...

Eles estava visivelmente aflito. Tinha nos olhos a inquietação de quem não sabe mais o que fazer, os lábios rígidos e apertados um contra o outro e as mãos húmidas e hesitantes, em voos rasantes entre os bolsos, o peito e os cabelos.

- Mágicos? Disse eu calmamente, sem dar grande importância à sua urgência. De que serviria a minha magia se não acreditas nela?!

- Que importa se acredito ou não? Neste momento até podia aparecer o Pai Natal!

- Pois é, mas as coisas não funcionam assim. Primeiro é preciso acreditar... já to disse vezes sem conta, tu é que não quiseste ouvir. Mas ouve lá, queres explicar o que se passa contigo?

- O que se passa comigo? Comigo? O que se passa, não é comigo, nem é contigo, passa-se no mundo e por isso é com todos! É COM TODOS, entendes?!

Neste momento as sobrancelhas dele estavam enrugadas como as pregas daqueles cães do anúncio das lavandarias, e gesticulava fortemente como se chamasse alguém no meio de muita gente, na praia por exemplo.

- Certo, certo, tens razão. Desculpa. Estava aqui perdida nos meus pensamentos e não te dei a devida atenção. Voltemos ao início então. Explica-me melhor o que se passa no mundo, porque acho que não percebi.

- O mundo avançou depressa demais, senti-o mesmo agora, antes de me levantar, não sentiste tu? assim uma espécie de rodopio forte que abanou tudo, estava deitado e tenho a certeza que vi tudo envelhecer num ápice, assim como num filme que se faz avançar e se vê tudo a andar a grande velocidade, sei bem do que estou a falar, o mundo avançou depressa demais e agora nunca mais conseguiremos apanhar a realidade... estamos assim numa espécie de quinta dimensão, o tempo passou por nós sem nos termos dado conta e o problema é que não faço ideia nenhuma do tamanho do salto em termos quantitativos, quer dizer podem ter passado uns minutos como meses ou até anos... percebes a dimensão do problema?!?!

Falava ininterruptamente, quase sem respirar, acompanhando o discurso com gestos cada vez mais expressivos. Ele próprio parecia avançar mais depressa que o tempo na pequena cozinha, onde eu continuava tranquilamente a preparar o pequeno-almoço, eu sim, numa dimensão diferente da dele.

- Isso está tudo muito bem, mas ainda não percebi afinal para que queres a minha magia.

- Para que quero?! Que achas? Para fazer recuar o tempo, o tempo que passou sem dar tempo para o vivermos! O tempo que avançou sem pedir licença! Ora bolas! Para que havia de ser... Dizes vezes sem conta que és uma feiticeira, que és bruxa, que isto e que aquilo...

- Certo... Digo-o varias vezes, mas no sentido figurado, entendes? No sentido figurado. Fala-me mais sobre o tempo, como tens tanta certeza que não foi apenas uma tontura?

A esta altura ele olhou para mim com a raiva de quem sabe que não o estão a ouvir e a urgência de se fazer entender perante aquilo que, para ele, era o fim do mundo. Olhei-o demoradamente sem conseguir decidir que sentimento me invadia perante aquele discurso surrealista. Ele não se ia calar. Não desta vez. Estava demasiadamente enredado na sua ilusão, deixara a fantasia invadir todo o seu espaço mental e era tarde demais para o fazer voltar ao mundo do real com falinhas mansas ou raciocínios lógicos.

- Ok, tens razão! Medidas drásticas são necessárias! Nada de inseguranças! Usemos a magia para fazer o tempo voltar atrás!

- Ah! Eu sabia! Só tu me entenderias! E o que propões?! Que usarás? Um feitiço tirado de um antigo livro de receitas? Como se processa a tua magia? Tens certeza que o teu poder se consegue sobrepor a esta calamidade?

- Ora, ora... Tem um pouco de confiança mim! É tão fácil que até parece uma brincadeira de crianças! Dava-me jeito ajuda... queres ajudar-me? É preciso força, força de vontade para acreditar...

- Claro! Ajudo no que for necessário! Que tenho de fazer?

- Vem para o meu lado, dá-me a mão assim, com força. Espera... falta uma coisa, e é essencial...

Mantive o controlo, não me ri, não chorei, não dei parte fraca. Era uma personagem no mundo dele e para o tirar de lá teria eu própria de entrar, vasculhar, vestir-me da sua fantasia para o embrulhar na triste realidade e, sem grandes mágoas, tentar retomar o tempo que ele achava perdido.

- Voltei! Agora sim, está tudo pronto! Chega-te a mim, dá-me a mão. Fecha os olhos, bate com os calcanhares um no outro e repete comigo, bem alto: supercalifragilisticexpialidocious...

Liliana Lima


"Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça.
Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...

Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!

Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!

Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários —
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida..."

"Ora Até que Enfim" de Álvaro de Campos
in "Poemas"