sexta-feira, julho 03, 2009

Conversas de loucos Álvaro, conversas de loucos...

- Se tens poderes mágicos, esta é uma boa ocasião para os usares...

Eles estava visivelmente aflito. Tinha nos olhos a inquietação de quem não sabe mais o que fazer, os lábios rígidos e apertados um contra o outro e as mãos húmidas e hesitantes, em voos rasantes entre os bolsos, o peito e os cabelos.

- Mágicos? Disse eu calmamente, sem dar grande importância à sua urgência. De que serviria a minha magia se não acreditas nela?!

- Que importa se acredito ou não? Neste momento até podia aparecer o Pai Natal!

- Pois é, mas as coisas não funcionam assim. Primeiro é preciso acreditar... já to disse vezes sem conta, tu é que não quiseste ouvir. Mas ouve lá, queres explicar o que se passa contigo?

- O que se passa comigo? Comigo? O que se passa, não é comigo, nem é contigo, passa-se no mundo e por isso é com todos! É COM TODOS, entendes?!

Neste momento as sobrancelhas dele estavam enrugadas como as pregas daqueles cães do anúncio das lavandarias, e gesticulava fortemente como se chamasse alguém no meio de muita gente, na praia por exemplo.

- Certo, certo, tens razão. Desculpa. Estava aqui perdida nos meus pensamentos e não te dei a devida atenção. Voltemos ao início então. Explica-me melhor o que se passa no mundo, porque acho que não percebi.

- O mundo avançou depressa demais, senti-o mesmo agora, antes de me levantar, não sentiste tu? assim uma espécie de rodopio forte que abanou tudo, estava deitado e tenho a certeza que vi tudo envelhecer num ápice, assim como num filme que se faz avançar e se vê tudo a andar a grande velocidade, sei bem do que estou a falar, o mundo avançou depressa demais e agora nunca mais conseguiremos apanhar a realidade... estamos assim numa espécie de quinta dimensão, o tempo passou por nós sem nos termos dado conta e o problema é que não faço ideia nenhuma do tamanho do salto em termos quantitativos, quer dizer podem ter passado uns minutos como meses ou até anos... percebes a dimensão do problema?!?!

Falava ininterruptamente, quase sem respirar, acompanhando o discurso com gestos cada vez mais expressivos. Ele próprio parecia avançar mais depressa que o tempo na pequena cozinha, onde eu continuava tranquilamente a preparar o pequeno-almoço, eu sim, numa dimensão diferente da dele.

- Isso está tudo muito bem, mas ainda não percebi afinal para que queres a minha magia.

- Para que quero?! Que achas? Para fazer recuar o tempo, o tempo que passou sem dar tempo para o vivermos! O tempo que avançou sem pedir licença! Ora bolas! Para que havia de ser... Dizes vezes sem conta que és uma feiticeira, que és bruxa, que isto e que aquilo...

- Certo... Digo-o varias vezes, mas no sentido figurado, entendes? No sentido figurado. Fala-me mais sobre o tempo, como tens tanta certeza que não foi apenas uma tontura?

A esta altura ele olhou para mim com a raiva de quem sabe que não o estão a ouvir e a urgência de se fazer entender perante aquilo que, para ele, era o fim do mundo. Olhei-o demoradamente sem conseguir decidir que sentimento me invadia perante aquele discurso surrealista. Ele não se ia calar. Não desta vez. Estava demasiadamente enredado na sua ilusão, deixara a fantasia invadir todo o seu espaço mental e era tarde demais para o fazer voltar ao mundo do real com falinhas mansas ou raciocínios lógicos.

- Ok, tens razão! Medidas drásticas são necessárias! Nada de inseguranças! Usemos a magia para fazer o tempo voltar atrás!

- Ah! Eu sabia! Só tu me entenderias! E o que propões?! Que usarás? Um feitiço tirado de um antigo livro de receitas? Como se processa a tua magia? Tens certeza que o teu poder se consegue sobrepor a esta calamidade?

- Ora, ora... Tem um pouco de confiança mim! É tão fácil que até parece uma brincadeira de crianças! Dava-me jeito ajuda... queres ajudar-me? É preciso força, força de vontade para acreditar...

- Claro! Ajudo no que for necessário! Que tenho de fazer?

- Vem para o meu lado, dá-me a mão assim, com força. Espera... falta uma coisa, e é essencial...

Mantive o controlo, não me ri, não chorei, não dei parte fraca. Era uma personagem no mundo dele e para o tirar de lá teria eu própria de entrar, vasculhar, vestir-me da sua fantasia para o embrulhar na triste realidade e, sem grandes mágoas, tentar retomar o tempo que ele achava perdido.

- Voltei! Agora sim, está tudo pronto! Chega-te a mim, dá-me a mão. Fecha os olhos, bate com os calcanhares um no outro e repete comigo, bem alto: supercalifragilisticexpialidocious...

Liliana Lima




"Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça.
Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...

Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!

Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!

Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários —
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida..."

"Ora Até que Enfim" de Álvaro de Campos
in "Poemas"
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