terça-feira, julho 07, 2009

Sabes quem sou, Fernando?!

Ela acordou cedo. O dia estava alegre e a luz saltitava pelo quarto, brincando com os cortinados entre-abertos. Espreguiçou-se antes de se levantar e acendeu o rádio enquanto iniciava a delicada tarefa de escolher a indumentaria para o dia que ainda mal começara. Poderia ser um dia igual a tantos outros, mas na verdade, e apesar da aparente tranquilidade atmosférica, tudo naquele dia viria a estar bem longe da normalidade.

Foi ainda no duche, enquanto se ensaboava, que percebeu que lhe faltava algo. Despachou-se a enxaguar o corpo e saiu da banheira numa inquietação crescente. Correu para o quarto e, desdenhando a roupa que escolhera e que cuidadosamente colocara em cima da cama, abriu portas e gavetas, revoltou as prateleiras e o roupeiro e despejou a caixinha dos brincos e dos alfinetes com que reduzia os decotes mais atrevidos. Não encontrando no quarto o que lhe fazia falta, avançou pela casa enrolada apenas na toalha de banho, em busca de algo que tanto procurava debaixo dos sofás, como em cima do frigorífico e até nas malas de inverno, arrumadas na pequena dispensa ao lado da caixa dos medicamentos e dos pensos rápidos.

Chegou à porta da rua ainda sem ter encontrado o que quer que procurava. Estava cansada, os cabelos ainda molhados teimavam em escorregar-lhe cara abaixo e os pés descalços começaram a arrepiá-la. Resolveu voltar ao quarto e vestir a roupa anteriormente escolhida, sem grande entusiasmo. De alguma forma o sol, que há momentos brincava pelo quarto fora, parecia-lhe tristonho e sem força. Uma nuvem de inquietação invadiu o seu sorriso e o dia entristecia com ela.

Perdera-se. Não sabia como nem porquê, mas durante o duche matinal percebeu claramente que se tinha perdido e, por mais que procurasse e revirasse a casa, não se conseguia encontrar. Como poderia sair assim de casa? Um corpo oco e desabitado, percorrendo as ruas da cidade em busca da sua alma... Por outro lado se não era ali, em casa, que se podia encontrar, seria com certeza na rua, perto de quem a conhecia e a queria bem que poderia reaver a sua essência. Sim! Era isso, devia sair o quanto antes e procurar por si no seu círculo de amigos, eles seriam capazes de a encontrar!

Saiu num remoinho deixando para trás a confusão espalhada um pouco por toda a casa. Encontrou-se com todos os que responderam à sua chamada, contou-lhes da sua perda e pediu-lhes ajuda para reaver-se a si própria. Cada um deu o seu contributo, conheciam-na bem e nada mais fácil que lhe contar das suas características, dos seus gostos, das suas paixões e amarguras. Apontou tudo num caderninho como se não pudesse escapar nada de si que mais tarde lhe viesse a fazer falta. Identificou-se com tudo o que diziam a seu respeito, como se aos poucos se lembrasse de um antigo amigo de Liceu. Guardou no caderninho a sua postura confiante e decidida, acarinhou o seu carisma forte e altruísta, abraçou a sua paixão por poesia e cinema, cuidou das feridas dos amores desanimados e apertou a mão às suas opções profissionais.

No fim do dia sentia-se de novo inteira, tinha no seu caderninho tudo o que necessitava para se recuperar. Mas então porque continuava no ar aquele nevoeiro estranho que a impedia de ver a sua imagem completa? Por muito que lhe falassem de si, por mais que lhe explicassem como era, não se sentia dona de si. Por muito que lhe mostrassem o caminho para si, não se conseguia encontrar.

Voltou para casa ao fim do dia, já o sol se escondia atrás do horizonte e o céu preparava a cama para Lua em tons rosa, laranja e azul. Entrou desanimada, pousou a mala e o caderninho no chão e sem acender as luzes do corredor foi até ao quarto, fingindo não ver a desarrumação que em todo o lado lembrava um dia de procura em vão. Sentou-se aos pés da cama, em frente à cómoda escura de onde saiam pontas de soutiens, mangas de uma t-shirt vermelha e metade de umas calças de ganga já gastas, restos da luta matinal em busca do seu "eu" perdido. Em cima da cómoda, o espelho rectangular esforçava-se por lhe devolver o seu reflexo completo.

Olhou em frente e viu-se, estava preocupada e triste no meio de um caos interior muito maior do que o visível à sua volta. Fixou-se durante muito tempo, tentando descodificar os sinais que lhe pareciam inteligíveis. Levantou-se sem tirar os olhos do espelho e perguntou-se onde estava, porque se escondia de si, porque tinha desaparecido, como podia encontrar-se. Ficou muito tempo de pé, em frente ao espelho a falar consigo. Conversou durante tanto tempo como há muito não se lembrava de conversar com alguém. Aos poucos foi-se reconhecendo nos pequenos gestos, nas discretas entrelinhas, nas subjectivas verdades. Deitou-se na cama, cansada mas inteira e dormiu toda noite tranquila e feliz. Encontrara-se no mesmo local onde, afinal, estivera o tempo todo.

Liliana Lima





"Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber.
Se acordo Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém. "

"Sonho. Não sei quem sou" de Fernando Pessoa
in "Cancioneiro"
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