quarta-feira, maio 03, 2017

Rea li da de

A realidade força a entrada através dos meus sentidos. Finjo desconhecê-la. Olho para dentro e nomeio todos os portos seguros onde sei que posso atracar sem licença ou marcação. Mas a tarde voa solta e a brisa primaveril que arrefece a tarde teima entrar na sala.

Um instante de distracção e o barulho a ecoar dentro de mim, abalando a calma, a pouca, que hoje em dia consigo, a custo, embalar. Olho para dentro e rodo as maçanetas da porta que não me ajuda a conter a areia que enche a ampulheta e se espalha pêlo chão.

Escorrego num sonho mal arrumado e baralho as cartas passadas com os jogos de faz de conta do dia-a-dia.

Sento-me e vejo ao fundo o Tejo, que galga a cidade e desagua a meus pés, molhando a areia e afundando qualquer promessa de normalidade.

A realidade força a entrada através dos meus sentidos. Sei que não a consigo absorver, apaziguar, iludir.

Levanto-me numa tranquilidade inventada e arrumo as cadeiras, recolho as tintas e guardo os trabalhos enquanto, olhando para dentro, lhe viro as costas.

Liliana Lima





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