domingo, setembro 20, 2015

r_i_o

Tenho um cruzeiro de brincar com o qual risco o rio de ondulações perpendiculares às margens. Rasga-se o leito à força do meu querer enquanto os veleiros baloiçam na agitação do vazio.

Procuro um navio onde empilhar as palavras que não me vais dizer. Contentores e contentores coloridos que empilho como peças de lego para mais tarde enterrar. É lá que me encontro, por entre as cores com que pinto o horizonte que podia ser.

Largo o cruzeiro e refugio-me no embalo das ondas por mim criadas, o Tejo sorri-me, divertido com as cores que espalho até à nascente. Navego sempre ao contrário da corrente, o rastro é sempre mais profundo.

Salto para a margem onde o rio ainda não confessa as marcas que provoquei. Demoram sempre tanto tempo a chegar as ondas de choque que chego a duvidar se, de facto, é neste leito que navego. Aproveito o intervalo para me deixar enganar pela acalmia que respiro neste pôr-do-Sol Outonal e visto-me de festa com as cores que roubo aos contentores.

Mais sentimento, menos sentimento, o cruzeiro vai acabar por albarroar o porta contentores, e as palavras que o povoam vão mergulhar na água colorida das que não chegarão a nascer.

Tenho um cruzeiro de brincar com que risco o rio ao ritmo do canto das sereias, e um porta contentores onde escondo os vazios que não rimam com as palavras que canto.

Liliana


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