terça-feira, julho 07, 2015

pôr DO tempo

O dia seguinte (há sempre um dia seguinte) correu descompassado pelas horas que se atropelavam nos minutos que se atrasavam. 

O relógio onde a engrenagem rodava sem rodar e uma mão cheia de areia sem espaço para descansar, com um. A ampulheta que se virava sem nada correr e os ponteiros cansados de tanto esperar, com outro.

Combinaram encontrar-se junto ao Tejo, ao pôr do sol, com a cidade como moldura e um abraço como promessa.

À medida que sol se aproximou do rio, assim o relógio se inquietou com a impossibilidade de marcar a hora combinada. Com o céu a corar e o rio a brilhar, o tempo avançou sem forma da ampulheta o contar. Foram andando pelas estradas, percorrendo os caminhos, resolvendo os desafios que se colocavam entre eles e a hora a que cada um previa o pôr do sol. 

Sem ponteiros ou areia, avançar nas horas tornou-se numa navegação à vista, sem vela nem remos. Um correndo pelas docas e o outro sentado a meio da rosa dos ventos. 

Os minutos certos, aqueles certinhos em que lhes tinham prometido que o sol beijaria o Tejo, chegaram alternados a cada um. E o sol, esse, abrandou teimosamente, baralhando horários e convenções e previsões. Abraçando o Tejo esperou que a hora certa, a deles, se encontrasse na correria das horas marcadas. 

Acertaram os ponteiros e guardaram a areia, ao ritmo inquieto de quem não quer saber quanto demora o tempo, fora do tempo, de um abraço.

Liliana


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