quarta-feira, novembro 05, 2014

arco - íris

Procuras o meu corpo, por entre tantos panos que vestem os nossos dias, com a tranquilidade de quem sabe que me encontra numa qualquer aguarela do arco-íris.
Espreito pela janela e aquieto a agitação para te sentir chegar.
 
Já velejámos tantas vezes por este rio e são sempre novas as marés que nos recebem. Tenho os pontos cardeais marcados na pele onde navegas, rasgando as águas e desenhando ondas à força dum vento que se rebela ou amaina a par da corrente sanguínea do nosso querer.

Saberás que já não, eu a respirar, a arquear, a sussurrar, mas tu?!
Eu, de repente inteira na palma da tua mão.
Eu, procurando o teu corpo para, nele, me sentir.
Eu, deixando de ser-me para ser-nos.
Eu, mergulhando nas águas do teu rio sem boia nem colete salva-vidas.
Eu, onda que se levanta à força do teu remoinho, desnorteada e descompassada em movimentos semicirculares, batendo no paredão e desfazendo-se em espuma fora do leito.
Eu, tu, baixando as velas e deixando o corpo à deriva, embalado na corrente que se acalma.
Eu, de repente e repentinamente eu, ao teu lado, fechando os olhos e apagando o mundo.

Procuro o meu corpo, por entre os tantos barcos e lemos e velas e remos e... que já f(s)omos, com a tranquilidade de quem sabe que fico sempre inteira quando venho de ti.
Espreito pela janela e aquieto a saudade para te saber esperar, aqui, numa qualquer aguarela do arco-íris.


Liliana
 
 
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