quinta-feira, outubro 09, 2014

VERedas

Foi assim, com a pele em flor duma semente d'outros campos rasgada no peito, que nos encontrámos.
Dormias encostado nas suas pétalas que mantinham o cheiro no ar e te embalavam nas memórias doridas dum futuro encerrado.

Percorri as veredas, escondidas por entre os caminhos largos e as estradas principais,  seguindo as migalhas que deixaste cair.
Sentei-me ao teu lado e, sem te acordar, cantei mornas e canções de embalar enquanto velava o teu sono.
Adormeci a meio dum refrão e sonhei que, acordado, me aquecias as mãos e afastavas os medos.
O vento de outras paisagens levou-me a vôos distantes e ausências prolongadas à procura do mapa astral que me devia salvar das tempestades.
E com a força das chuvas, encontrei-me de volta aos atalhos e carreiros onde reconheci as tuas e minhas pegadas.

E assim, com a pele em flor duma semente d'outros campos rasgada no peito, reencontrei-te dormindo nas memórias doridas dum futuro encerrado.

Olhei-te, com a luz tímida dum sol acabado de nascer, e vi as lágrimas que não mostravas.
Toquei-te no ombro e senti o arrepio gelado duma pele frágil que se quer mostrar carapaça. 
Falaste-me e, devagar, encostei-me a ti para ouvir para além das palavras ditas.
Ali ficámos muitos dias, tricotando a cumplicidade de quem se despe por dentro sem medo  do reflexo de outros olhos.
As pétalas da flor onde dormias caíram e outras, que fui tentando alisar, nasceram no seu lugar.
O mapa que sempre procurei, o do caminho astral que me iria salvar, levou-me repetidamente a becos sem saída, de onde fui saindo com a ajuda da tua mão. 
E os ventos do oriente foram enfunando as nossas velas na mesma direcção. 

Foi assim, numa tarde sem manhã nem noite, com a pele em flor duma semente d'outros campos rasgada no peito, que nos encontrámos. 
Foi assim, encostados em pétalas de várias cores que fechámos as portas ao futuro e, apesar das memórias doridas, desenhámos o caminho do presente.

Às vezes ainda me perco no meio das veredas.
Às vezes ainda te encontro dorido, embalado nas memórias. 
Quase sempre, seguimos as pegadas por nós desenhadas e encontramo-nos a meio caminho entre o aqui e o agora.


Liliana




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