quarta-feira, outubro 15, 2014

bege

Levanto o auscutador do telefone bege, pousado na mesa de carvalho com um banco incorporado, e faço rodar o disco dos números que me levam a ti. Oiço o sinal de chamada, que repetidamente chama o teu nome, e espero pela tua voz. Não estás, ou não ouves, ou já dormes. Não atendes. Desligo a chamada e fico com o auscultador colado ao ouvido.

A lua abraça a cidade e pinta o rio de pequenas ondas prateadas. Enquanto, sentada no banco-mesa ao lado da janela com o telefone na mão, converso contigo em silêncio. Conto-te, numa conversa inventada, da chuva fria que me molhou e do nevoeiro onde me perdi e das palavras que me enganaram e das horas que não vivi. Falo devagar, ouvindo cuidadosamente as tuas respostas, e acabo a conversa com um quase-sorriso e um obrigada enrolados num beijo de boa noite.

As estrelas não me iluminam o sono e a noite, branca, passa muito devagar. O dia acorda com olheiras e um cansaço enjoativo que me veste o corpo. Olho para a mesa-banco e o telefone, como eu, está fora do descanso. Pego no auscultador e deito-o delicadamente no seu suporte. Abro a porta da rua, mas antes de sair oiço o telefone que repetidamente chama o meu nome.

Levanto o auscultador do telefone bege, pousado na mesa de carvalho com um banco incorporado, e oiço a tua voz que me pergunta se liguei para ti.


Liliana


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