sexta-feira, outubro 24, 2014

Astro.Lábio

Embrulhei-me num cesto de palavras doridas, magoadas, desiludidas, e procurei mudar-lhes o significado.

Pintei-as numa tela de algodão, por entre caminhos e possibilidades por onde não avançaram.
Mergulhei-as nas ondas dum mar iluminado pela lua, para que percebessem a beleza do reflexo inconstante nas águas. Mas limitaram-se a deixar-se afundar pelo peso estimado apenas por elas.
Dei-lhes versos de outros olhos para com eles se reinventarem. Mas não os tiraram do papel.
Pronunciei-as com todos os ritmos e entoações que há em mim, mas não as consegui aproximar.
Contei-lhes histórias de outros mundos e baralhei-lhes o sentido, mas nunca as comovi.
Mostrei-lhes o mapa astral, construi-lhes um barco e dei-lhes um astrolábio, para que zarpassem sem medo à descoberta da sua rota. Mas nunca saíram do porto.
Por fim, sentei-me à fogueira e embalei-as com a música dos sonhos. Mas passaram a noite em branco.

Embrulhei-me num cesto de palavras e tentei mudar-lhes o significado com tudo o que tinha para lhes dar, mas na verdade o que pode gerar mudança, não é tanto o que é dado mas sim o que se suspira receber.


Liliana



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