terça-feira, maio 27, 2014

Vazio

Há um vazio neste quarto, onde cabe uma imagem de ti. Uma moldura em branco que ocupas aqui e ali e que, quando sais, deixas pousada junto ao estojo das sombras que ficam comigo.

Aprendi a conversar com o teu silêncio que, desde manhã fala comigo. Ao sair do duche com a toalha enrolada na cabeça, ou procurando o vestido que nunca encontro no meio do roupeiro atulhado, tropeço no eco da tua voz e, com ele, finjo preencher o teu lado da cama.

O espelho, retina de tantas imagens, nos dias cinzentos parece reflectir apenas os flaxes dos risos, meus e teus, rodopiando no tecto com o barulho da chuva ao fundo. Olho para as paredes e reconheço-te nas sombras de outras luzes que hoje não brilham.

Procuro o caderno de capa preta, refúgio de tantos invernos, mas as folhas estão em branco, vazias das palavras que fui usando em nós. Palavras coloridas que juntava num verso escrito com lápiz de cor e que te ofereci nos momentos alegres. Palavras pesadas que nunca disse, mas escrevi, para me libertar dos dias escuros. Palavras rebuscadas que trocámos em volta de tantas conversas filosóficas.

Há um vazio neste quarto, que ocupas aqui e ali, quando abafas o silêncio e enches as imagens mortas com a vida das palavras, saídas dum caderno de capa preta.

Liliana



segunda-feira, maio 12, 2014

fantasmas

Apago a luz e fecho a porta sempre que me dás a mão, não sei se para conter o mundo lá fora se para deixar de me ver.

Entro devagar para fora dos fantasmas antigos e troco-os pelos que acabei de conhecer. Aqui no escuro, entre mim e ti, no espaço cada vez mais ínfimo que separa os nossos corpos, procuro deixar de me ver.

Fecho os olhos e vejo as tuas mãos que percorrem o meu corpo com a certeza de quem já conhece o mapa astral e identifica cada constelação noturna. Procuro-te entre os lençóis e por entre os suspiros que dançam no ar e, quando os meus lábios encontram a tua pele, escolho deixar de me ver.

Apago a luz e fecho a porta sempre que te dou a mão, não sei se para conter o mundo lá fora se para te tentar ver.

Liliana



sábado, maio 03, 2014

Mastro despido

Navego à deriva com um mastro despido, num Tejo sem margens para aportar. Foste tu que me ensinaste a navegar com a força dos humores do vento.

Mas sozinha no barco, rasguei as velas onde bordei histórias de dias claros. Dias num Tejo meu, ou nosso, onde as palavras rodopiavam na água baralhando as gaivotas.

Agora, parada sem maré que me embale, espero por ti numa estrela cadente. Não estás ou não te vejo no céu, nesta noite de lua nova. Não é aqui o teu ninho, não é esta a tua rota. Foi esse o nosso compromisso, acaso um faltar, o combinado é zarpar.

Navego, ainda, à deriva neste barco instável que, sem vela não me deixa avançar, neste rio parado que não me permite aproximar. 'A noite, que a seu costume tudo transfigura' traz-me à memória outros céus de outros mundos e, em menos de nada, sentada no chão agarro os joelhos com força para afastar os medos.

Sob o céu escuro e o rio cinzento vejo uma figura recortada na margem que me puxa como se um peixe fosse. Encontro o teu sorriso e enrosco-me no teu abraço, este é o nosso Tejo e nele nos encontramos. Enrolo as pernas à tua volta e fundimo-nos num mergulho urgente que agita as àguas e acorda as estrelas. Sou o teu corpo e tu no meu, os braços que se perdem, os corpos que se tocam e se apertam e se dão até que, feito Tejo, desaguas em mim. A ondulação abranda ao ritmo do nosso respirar e toda a cidade se retira para o acordar dos corpos, enquanto a mãos ainda aninhadas nos mantêm seguros num Tejo que é nosso.

O clarear das águas denuncia o amanhecer e os nossos corpos, cansados, voltam a si. Deixo-me embalar mais um pouco no teu sorriso enquanto me ajudas a levantar a vela, uma nova vela que fizeste para mim. Entro para o barco e despeço-me de ti. Sorris e partes pelas ruas da cidade. Não é aqui o teu ninho, não é esta a tua rota.

Navego nas águas cristalinas do Tejo, baixo a vela e rasgo-a em pedacinhos onde bordo histórias de noites claras. A maré embala-me e os dias sorriem. Até que um dia sem ventos nem marés me veja sozinha à deriva com um mastro despido...


Liliana