sábado, maio 03, 2014

Mastro despido

Navego à deriva com um mastro despido, num Tejo sem margens para aportar. Foste tu que me ensinaste a navegar com a força dos humores do vento.

Mas sozinha no barco, rasguei as velas onde bordei histórias de dias claros. Dias num Tejo meu, ou nosso, onde as palavras rodopiavam na água baralhando as gaivotas.

Agora, parada sem maré que me embale, espero por ti numa estrela cadente. Não estás ou não te vejo no céu, nesta noite de lua nova. Não é aqui o teu ninho, não é esta a tua rota. Foi esse o nosso compromisso, acaso um faltar, o combinado é zarpar.

Navego, ainda, à deriva neste barco instável que, sem vela não me deixa avançar, neste rio parado que não me permite aproximar. 'A noite, que a seu costume tudo transfigura' traz-me à memória outros céus de outros mundos e, em menos de nada, sentada no chão agarro os joelhos com força para afastar os medos.

Sob o céu escuro e o rio cinzento vejo uma figura recortada na margem que me puxa como se um peixe fosse. Encontro o teu sorriso e enrosco-me no teu abraço, este é o nosso Tejo e nele nos encontramos. Enrolo as pernas à tua volta e fundimo-nos num mergulho urgente que agita as àguas e acorda as estrelas. Sou o teu corpo e tu no meu, os braços que se perdem, os corpos que se tocam e se apertam e se dão até que, feito Tejo, desaguas em mim. A ondulação abranda ao ritmo do nosso respirar e toda a cidade se retira para o acordar dos corpos, enquanto a mãos ainda aninhadas nos mantêm seguros num Tejo que é nosso.

O clarear das águas denuncia o amanhecer e os nossos corpos, cansados, voltam a si. Deixo-me embalar mais um pouco no teu sorriso enquanto me ajudas a levantar a vela, uma nova vela que fizeste para mim. Entro para o barco e despeço-me de ti. Sorris e partes pelas ruas da cidade. Não é aqui o teu ninho, não é esta a tua rota.

Navego nas águas cristalinas do Tejo, baixo a vela e rasgo-a em pedacinhos onde bordo histórias de noites claras. A maré embala-me e os dias sorriem. Até que um dia sem ventos nem marés me veja sozinha à deriva com um mastro despido...


Liliana




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