segunda-feira, fevereiro 17, 2014

Sorriso

Chego, estás no lado oposto do jardim olhando as árvores que já viveram tantas vidas. Vou-me aproximando com um sorriso de menina, matreiro, de quem sente já o teu abraço muito antes de nos tocarmos. Não consigo assustar-te, o teu olhar encontrou o meu a meio do percurso. Penso andar mais depressa para te chegar, mas atraso o passo qual raposa à espera dos cabelos d'oiro, e faço-te esperar, escondendo o sorriso num andar quase dançado.

Encontramo-nos por fim, não no jardim, nas paredes que nos acolhem e nos embalam com os ponteiros, cúmplices dum tempo que se demora desde que entrámos em casa.

Não temos pressa, os dias de grandes nervosismos já lá vão, e nós não os revivemos nem queremos. Queremos e temos as mãos que se apertam e abrem caminho para os corpos se despirem sem vergonhas e se entregarem sem reservas numa comunhão de quereres e sentires que nos envolve junto à cama.

Sou-me em ti e sinto o contrário sem palavras no meio. Lá fora chove, ou está enevoado, ou até faz sol. Aqui dentro estamos nós, e o tempo é o que nós fizermos dele. Há ventos suaves à força duma mão que se passeia em dunas ondulantes. Há vales onde a primavera faz nascer flores e correr um riacho por entre leves pulsares. Há montes que se acomodam à forma de uma mão que traz com ela o calor. Há planícies que se contorcem em movimentos cíclicos que vão aumentando de velocidade e intensidade conforme os corações assim o comandam e a respiração assim obedece e os braços assim os envolvem... Até que uma onda de lava se entrega ao mar provocando o fervilhar das águas até ao fundo dos corais.

Somo-nos nos lençóis suados, nas caras coradas, na respiração descontrolada, nos corpos ainda um, num não-local onde nos deixamos ficar durante muito tempo.

Com o despertar dos ponteiros, devagar, voltamos a nós. Eu contigo e tu com um pouco de mim. E um sorriso de meninos, matreiros, de quem sabe que o abraço se soltou, mas não acabou.


Liliana



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