domingo, dezembro 01, 2013

Coração

Entro na loja abafada pelo ar-condicionado que me deixa em choque-térmico, vindo do frio da rua.
Os enfeites e as luzes a piscar atordoam-me os olhos e deixam-me perdida por entre as filas de pessoas, estranhas para esta hora do dia.
Não consigo empurrar o meu carrinho até aos vegetais. Ao fundo a música com sininhos e vozes infantis toca alguns décibeis mais alto do que devia.
Avanço pelos corredores e perco-me na lista de compras. O piscar das luzes e música de fundo acompanham-me para todos os lados que me viro.
As caixas estão cheias com filas de carrinhos e pessoas que se empurram de fila em fila, para chegar primeiro à frente.

Baixem a música que aqui à saída não há Natal!

No balcão já se fazem embrulhos, os papeis são somente vermelhos e verdes para descontentamento dos clientes que exigem um papel infantil, com desenhos e cores.

Desliguem as luzes que aqui ninguém se lembra do que quer dizer Natal!

Uma senhora de idade chega-se à frente com um cesto de pão e pouco mais, pede para a deixarem passar, não consegue estar de pé. A primeira tem o filho com ela, o segundo também lhe doem as pernas e a terceira olha para o lado como se isso a tornasse invisível.

Retirem os enfeites, o Natal murchou antes de chegar!

Saio com o barulho das pessoas das zangas da música dos embrulhos e de tudo o que faz de conta que representa o Natal. Estou zangada, enervada e quase farta do Natal. 
O frio da rua quase que me deixa em choque-térmico, e o Sol contrastando com o azul claro do céu lembra-me que o Natal não está no meio das prendas embrulhadas com papeis escolhidos a dedo, nem nas correrias das compras.

Abram o coração, é lá que está o Natal queiramos nós acolhê-lo!

Liliana



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