terça-feira, novembro 19, 2013

À minha avó

A nossa recordação mais antiga que guardo na caixa das horas vividas, é a mesa da cozinha cheia de púcaros onde, a par contigo, cozinhava as cascas das ervilhas que eu detestava, ou das cenouras que davam uma cor linda aos meus cozinhados depois de bem esborrachadas, ou ainda os talos dos grelos que eu desesperadamente tentava migar com a faca de sobremesa que me davas como utensílio. No fim das contas o mais importante de tudo era mesmo o avental, teu, que dobravas para eu não tropeçar e apertavas com um laço digno de uma princesa.

A cozinha foi, de facto, o centro das nossas memórias, aliás era o centro nevrálgico de toda a casa e família, que giravam à sua volta de acordo com as horas, os dias da semana, as festividades anuais e toda a logística que ali tratavas e resolvias com as tuas próprias mãos.

Nas grandes janelas, rasgadas sobre o Tejo, da sala de estar, aprendi a contar os carros que, apressados corriam na marginal nos fins de tarde de Primavera, com um Sol preguiçoso que se despedia da cidade beijando o rio.

Ao som dos Parodiantes de Lisboa faziam-se os trabalhos de casa, difíceis por ter vindo coxa (ou nem isso) da Primeira Classe. A tabuada espalhava-se por toda a casa, seguia pelo corredor até ao banho, abria a porta do quarto para se vestir, parava no sofá da sala da televisão e voltava à cozinha, sempre com os mesmos erros e os respectivos ralhetes.

Fora de casa, seguíamos até Algés com o rio como companheiro e as conversas inesgotáveis de quem descobria o mundo inteiro numa folha do jardim, e tu paciente, atenta, respondendo àquele enorme entusiasmo até às montras e montras com muito mais do que conseguia imaginar e, por fim, o café e o bolinho antes do eléctrico de regresso.

E ainda os Natais, e ainda o sótão com os brinquedos, e ainda as saias e os vestidos, e ainda as conversas de "mulheres", e ainda os outros dias todos de que não guardo memória...

A tua recordação mais antiga que guardo é tão antiga que não me lembro dela, mas sei que está dentro de mim, a primeira vez que te vi e te percebi minha... para sempre.

Liliana


Parabéns pelos 88 anos, obrigada!
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