segunda-feira, outubro 07, 2013

Debaixo do rio

Chamas o meu nome bem alto e acenas-me do outro lado do rio. Sorrio de volta. O barco que liga as margens segue na minha direcção e sinto-te já ao meu lado, o calor das mãos, o cheiro do abraço. 


Debaixo da ponte um ruído passado, barulho de outras vidas, enrola a corrente num remoinho que puxa o barco. Deixo de te ver. Chamo por ti na ponta do porto, mas o barco afasta-se no nevoeiro que esconde o castelo e envolve a cidade.


Fico só. Sem saber do barco onde vinhas, sem te sentir o abraço quente e tranquilo que já antecipava. Toda a cidade parece diluída num retrato a carvão mal desenhado, esborratado nos cantos. As cores que trazias na mão para me dar perderam-se num remoinho de coisas sem importância nenhuma.


Levanto-me e num último suspiro digo o teu nome aos peixes às gaivotas às nuvens e até à chuva que se funde com as lágrimas que teimam em cair e rolar até ao Tejo para, com os peixes, te procurarem. 

Encontram-te no fundo do rio, sentado numa pedra, tão longe do calor e da magia que nos unia. Os peixes aproximam-se e contam-te o segredo das lágrimas que chorei. Dizem-te dos sorrisos que despertaste, das cores que me faltam, e do calor que me aquece.



No porto cinzento, espero-te em silêncio, já sem esperança. A noite cai e a lua ilumina o rio agora quieto, quase parado. Atrás de mim um cheiro quente lembra-me o ruído e a ponte e o remoinho.... fazem-me falta as tuas cores, faz-me falta a tua mão na minha e a possibilidade do impossível.
Liliana
 


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