sábado, dezembro 29, 2012

A menina dança?!...

No gira-discos antigo do meu pai toca um disco do Leonard Cohen, a sala enche-se com a sua voz quente rasgada aqui e ali por um minúsculo salto da agulha.

É tarde. Os ponteiros dançam mais rápido do que o ritmo da valsa que ecoa na casa. E o tempo escorre pela ampulheta, deixando-nos sem espaço.
É tarde e no entanto parece tão cedo.

Estendes-me a mão com um sorriso de menino e convidas-me para dançar.
Há tantos anos que não sinto a música desta forma, vibrar no corpo que segue outro até os dois serem como um só, nos movimentos, no ritmo, na respiração... Fecho os olhos e sala parece imensa, aliás não há sala, nem casa, apenas o disco que toca no gira-discos e nós que dançamos descalços.

A agulha chega ao fim do disco e à música segue-se o arranhar no final do vinil. Abro os olhos e de novo a casa, a sala, os ponteiros, o tempo (que já é tarde) e nós que voltamos aos nossos corpos ainda com a a cabeça a rodar.

Um silêncio esmagador enche toda a casa enquanto voltas a pousar a agulha no início do disco. A música espalha-se por todos os cantos, e o teu sorriso de menino, e a tua mão que me levanta, e os dois corpos que se juntam, ao ritmo comandado pelo antigo gira-discos do meu pai. 

Desta vez um ritmo mais calmo, os corpos mais perto, os teus braços que me apertam contra ti fora do compasso e as tuas mãos que se perdem nas minhas costas. Deixo de ouvir a música, os corpos falam entre si em silêncio. Pergunto se não te estou a entender mal, pergunto novamente, e só quando a tua respiração responde me deixo levar, não pelo ritmo do disco que de repente passou para segundo plano, mas pelos dois corpos que se despem, se tocam e se misturam.

É tarde. No antigo gira-discos do meu pai continua a tocar um disco do Leonard Cohen. Queria fechar os olhos e deixar-me ficar, mas os ponteiros, a ampulheta e o tempo obrigam a respiração a acalmar. De novo a sala, a casa e, ao meu lado, o teu sorriso de menino.

É tarde...

Liliana



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