domingo, outubro 14, 2012

Hoje as janelas estão fechadas

Não gosto de correr as persianas, nunca gostei, sinto-me asfixiada pelas paredes brancas que parecem apertar-me num canto da sala. Prefiro cortinados leves que me protegem do exterior mas permitem ao olhar sair e saltitar pelas pessoas que passam na rua, os carros, as expressões, as outras casas, o jardim, os canteiros... 

Todas as manhãs, Verão ou Inverno, abro as janelas de par em par para o ar do novo dia renovar a energia da casa, espalhar o pó das mágoas nocturnas e acordar os sonhos perdidos por baixo dos sofás ou atrás dos livros da estante do escritório. Respiro a cidade e sinto-lhe o ritmo, o correr do Tejo que me conta do dia que agora começa e a luz do céu que me inspira o sorriso para me enfrentar nas horas seguintes.

Hoje, todas as janelas estão fechadas. Vejo a vida que corre num corropio de carros zangados e pessoas apressadas e crianças com mochilas e cães puxados pelos donos. Vejo, mas não sinto. O Tejo não me vem cumprimentar e sussurrar a sua voz. E os sonhos estão perdidos um pouco por toda a casa sem se deixarem descobrir. A luz, abafada pelas cortinas, não chega para aquecer o coração nem abrir o sorriso que tanta falta me faz para conhecer o novo dia.

Com as janelas fechadas, não tenho coragem para sair e entrar no carrossel que corre lá em baixo. Com as janelas fechadas não sinto, estou dentro duma bola de sabão que flutua pelo céu mas nunca chega a tocar em nada.
Com as janelas fechadas, não consigo criar os sonhos que dão sentido ao meu andar.

Com as janelas fechadas...
Com as mão fechadas...
Com o sorriso fechado...
Com o coração fechado...

Liliana





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