segunda-feira, outubro 15, 2012

Dá-me a mão, Sérgio...

Dá-me a mão que me escapo por este precipício feito de lembranças dos meus medos, vestidos de fatos completos e sapatos altos, numa dança de salão que me convida para o centro num voo libertador de gaivota bailarina.

Dá-me a mão que salto para este buraco escuro onde o agora se baralha com o antes, e o depois deixa de existir, num movimento circular em volta de cada lágrima que não chorei e de cada sorriso que fingi.

Dá-me a mão para que não me envolva neste cântico de sereia que me chama e me puxa para o fundo do fundo do mar, onde os peixes me relembram os erros e as falhas e a água é fria e escura e não me deixa respirar.

Dá-me a mão porque este grito leva-me ao início dos tempos e esta zanga atira-me para outro dia e eu, de repente pequena, não me sei defender nem resguardar, e vou pelos anos fora contabizando as mágoas que saltam das caixas onde as escondi, como bonecos de mola que me olham com olhos assustadores.

Dá-me a mão nesta corda bamba que decidi atravessar, apesar de todos os avisos e conselhos e contra todos os gráficos e estatísticas, numa bicicleta ferrugenta e sem travões que me levará não sei bem onde nem como.


Dá-me a mão e não digas nada que o silêncio contém em si todas as palavras do mundo e eu sei tudo o que me queres dizer.

Dá-me a mão apesar do que sentes e pensas das minhas escolhas.

Dá-me a mão apenas...

Dá-me a mão...


Liliana




"- Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
- É que o meu homem partiu

Disse-me na praia

frente ao paredão
“tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem”

Pode alguém ser quem não é?

Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?

Seja um bom agoiro

ou seja um mau presságio
sonhei com o choro
de alguém num naufrágio
não tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão

“por cá me governo”

escreveu-me então
“aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês d’Abril, águas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar”

Pode alguém ser quem não é?


É estranho no ventre

ser de outro lugar
e tão confusamente
ver desmoronar
um a um sonhos sãos
duas mãos
passando da alegria ao desamor

Pode alguém ser livre

se outro alguém não é
a algema dum outro
serve-me no pé
nas duas mãos,
sonhos vãos, pesadelos
diz-me:
Pode alguém ser quem não é?"



Pode alguém ser quem não é  de  Sérgio Godinho
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