terça-feira, setembro 04, 2012

As "chuvas" de Fausto...


A enxurrada começara há já cerca duas horas, aos poucos a rua tornava-se o leito de um rio e a força das águas levava consigo os carros, os caixotes, os papeis e o lixo, até esta se tornar límpida e transparente.

As primeiras fotografias passaram quase despercebidas no meio da corrente, mas rapidamente se multiplicaram e a sua presença impôs-se no meio daquele estranho espectáculo. Fotos antigas, descoradas, fotos... de um bebé (uma menina?!), um bebé banal, com o rabito ao léu em cima de uma almofada no estúdio de um qualquer fotógrafo de época; a comer papa ao colo de uma senhora (a mãe?!); a brincar com bonecas (sim, era uma menina!); a primeira comunhão com um vestido de cerimónia branco; no parque infantil a andar de baloiço; num aniversário com os pais e um bolo com 5 velas (seriam os pais?); de bibe num grande pátio escolar com outras crianças... Fotos banais de uma infância banal.

No meio das fotografias as águas, agora mais lentas, traziam cadernos pautados de capa preta, com exercícios de escrita numa letra insegura, outros quadriculados onde a tabuada começava lentamente, a diluir tornando-se num enorme borrão ilegível.

Apareceu depois, uma boneca já gasta com o cabelo eriçado, uma saia colegial de tecido escocês plissada, um vestido juvenil de cerimónia fora de moda, uma almofada de peluche vermelho em forma de coração, que ficou presa no portão das garagens do último prédio da rua, com a palavra “Amo-te” bordada em letras amarelas, velhas caixas de bombons com grandes laços já esgaçados, brincos, anéis e mais fotografias que, com a corrente, foram vagarosamente descendo a rua num desfile bizarro de objectos desconexos.

Ao fundo da rua, uma mulher de cabelo branco preso em caracol com um gancho azul turquesa, olhos meigos e profundos com a sabedoria que apenas o passar dos anos oferece; apanhava calmamente as memórias que desaguavam no pequeno largo que ligava à avenida principal. 
Fazia-o de uma forma terna, quase maternal, sem se preocupar com as roupas molhadas que se lhe colavam ao corpo e dificultavam os movimentos. Recolhia as memórias que depois guardava no seu colo, protegendo-as das águas.

Aos poucos retirou todas as lembranças que a água trouxera e, depois de confirmar que não restava mais nenhuma, embrulhou delicadamente os objectos na saia e subiu a rua, lutando contra a força das águas que teimavam empurra-la para trás.

Chegada à porta da nascente, subiu as escadas e entrou na casa de onde saíram as lembranças.

Num canto da sala Madalena soluçava ainda, estremecendo o corpo enrolado sobre os joelhos no chão frio de tijoleira vermelha. O quadro conferia-lhe um ar frágil e infantil, como se uma pequena criança no meio dum quarto escuro se tratasse.

A mãe chegou-se a ela, fez-lhe uma festa a cabeça e, com muito cuidado, retirou uma por uma todas as lembranças boas, desde a primeira fotografia da menina ainda bebé. Em seguida retirou as más, as tristes e amargas. Colocou-as todas seguidas por ordem cronológica e mostrou-lhe que umas não existiriam sem as outras sussurrando-lhe levemente ao ouvido: “sabes Madalena? só há arco-íris enquanto houver o lado de cá e o lado de lá...”

Lá fora, as águas deixaram de correr e a rua voltou, pouco a pouco, à normalidade.

Liliana - Novembro de 2006



“Eu pego na minha viola
E canto assim
Esta vida
A correr
Eu sei que é pouco e não consola
Nem cozido à portuguesa há sequer
Quem canta sempre se levanta
Calados é que podemos cair
Com o vinho molha-se a garganta
Se a lua nova está para subir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir

Eu sei de histórias verdadeirasUmas belas
Outras tristes de assombrar
Do marinheiro morto em terra
Em luta por melhor vida no mar
Da velha criada despedida
Que enlouqueceu e se pôs a cantar
E do trapeiro da avenida
Mal dormido se pôs a ouvir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir

Sei de vitórias e derrotas
Nesta luta que se há-de vencer
Se quem trabalha não esgosta
No seu salário sempre a descer
Olha a polícia
Olha o talher
Olha o preço da vida a subir
Mas quem mal faz
Por mal espere
Se o tirano fez a festa
P'ra fugir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir

Mas esse tempo que há-de vir
Não se espera como a noite
Espera o dia
Nasce da força que transpira
De braços e pernas em harmonia
Já basta tanta desgraça
Que a gente tem no peito
A cair
Não é do povo
Nem da raça
Mas do modo como vês o porvir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir “ 
Atrás dos tempos – Fausto Bordalo Dias
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