quarta-feira, junho 06, 2012

És forte?

"És mais forte do que pensas", disseram-lhe. "Abre as asas e voa!"

Sou forte? Perguntou a si mesma. Eu sei que sou forte! Sou forte demais! 
Carrego o mundo às costas, à força de me prender com todos os males e não perdoar o mais pequeno erro que cometo no rodar dos ponteiros. 
Não duvido que sou forte. Reinvento-me a cada manhã para começar a andar e procuro na almofada a coragem para recomeçar, de novo, ao nascer do dia.
Duvido é que consiga sair dos dias cinzentos em que não encontro o arco-íris. Entrei neste nevoeiro por engano, mas sentei-me num canto, cansada de tanta correria, e agora não encontro a saída.
Não fora tão forte e podia baixar os braços, gritar bem alto e dizer-te que não consigo avançar.
Não fora tão forte e conseguia olhar ao espelho e ver com ternura alguém que precisa apenas da minha ajuda.
Não fora tão forte e saberia pedir-te ajuda.

Abanou afirmativamente com a cabeça, apenas para não continuar uma conversa que, já percebera, não iria a lado algum. Despediu-se e desligou o telefone, daqueles antigos, pretos, que mantivera contra os avançados aparelhos de hoje em dia. Sabia-lhe bem aquele conforto ultrapassado de casa da avó.

Sou, forte, sou forte... Murmurava ao mesmo tempo que se sentava em frente ao computador, esse já novo, moderno, pequeno. Ficou ali sentada a olhar o ecrã, alternando entre fotos e frases feitas que não via. Remoía a conversa passada na cabeça como uma discussão entre ela e ela mesma.

Fossem vocês tão fortes como eu e entenderiam o peso de me me ver, reflectida no rio, e não encontrar a vida em que me reconheço.
Fossem vocês tão fortes como eu e perceberiam que sem essa luz interna não vejo o caminho para mim mesma e, sem mim, não tenho vontade de me levantar desta cadeira.

Sim, sou forte.
Antes não fosse...
Liliana




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