quarta-feira, maio 09, 2012

(por) Portas fechadas não correm ventanias

Águas passadas não movem moinhos! Por portas fechadas não correm ventanias.
Não movem?
Correm...

Fechei-te a porta e esqueci-me de sair. 
Na noite da lua nova, escondida, invisível e imperceptível, fechei-te a porta depois de confirmar que tudo estava vazio. Apaguei as luzes, corri as persianas e, fingindo indiferença, rodei a última volta da chave. Virei as costas e afastei-me de ti como se nada de meu deixasse para trás. 

A casa ficou arrumada. As cadeiras, umas encaixadas nas outras esticando as pernas no ar despido da sala, despediram-se mim. Os livros, deixados ao abandono na solidão das prateleiras sem vida, disseram-me adeus. E os sofás, vestidos de branco como uma noiva abandonada no altar, esconderam-se debaixo dos lençóis para não me ver partir. Na cozinha, um molho de pratos equilibrado no escorredor e os copos em fila na bancada, acotovelaram-se para me abanar os lenços.

As águas correram sem voltar a falar de nós e a maré lavou os destroços da despedida. Fechei-te a porta sem olhar para trás e a vida seguiu como um rio que se devia da queda. 

Lembrei-me de ti, aqui e ali no avançar dos ponteiros dos dias. Senti saudades do muito fizemos, em todas as noites sem lua, que se repetem todos os meses e banham a cidade num céu escuro. Mas nunca voltei a pensar na porta que fechei, nem nos livros que deixei sem ler, nem nas comidas que não cozinhei. Era como se nunca te tivesse deixado. Como se a qualquer momento pudesse voltar a ti, abrir a porta e acender as luzes, e tudo estaria nos lugares certos, à minha espera. Os pratos sorrindo e os sofás abrindo os braços para me receber. As luzes acesas, só na metade de lá da sala, e as cadeiras espalhadas, prontas para me receber.

Hoje regressei a ti, a nós. Um emaranhado de circunstâncias, tão circunstanciais como indiferentes, obrigou-me a abrir a porta e enfrentar o pó e o silêncio e o vazio em que te deixei. Os livros gritaram de solidão, engelhados com a humidade, e os copos desfilaram o abandono num vestido de pó. Entrei em cada sala e percorri os corredores, em todos encontrei um pouco de mim, parada na noite em que, sem me aperceber, nos fechei.

Águas passadas não movem moinhos?

Liliana


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