terça-feira, maio 22, 2012

Azul tejo...

Entro na água com os pés descalços e arrepio-me com o ondular que me gela todo o corpo. Sussurro uma canção antiga, mais velha que o nascer do sol, que varre as memórias e levanta o pó dos sentidos e acende o brilho dos olhos. A ponte balança as ancas acompanhando o ritmo vagaroso da maré que me cumprimenta. 

Deixo-me levar novamente pelo azul límpido das águas. 

Entro pelo rio nesta melodia esquecida, avanço sem esforço. Leva-me a maré que, aos poucos, se levanta em ondas na minha direcção. O vento acompanha a minha canção e enche todo o horizonte com os sentimentos que se soltam de cada palavra cantada, de cada melodia entoada. Olho para o espelho de água e revejo-me presa num remoinho antigo, passado, abafado pelo pó dos dias, que recomeça a girar à minha volta. 

Será possível? Pergunto-lhe. 
Será que a canção, que ficou debaixo da areia, se eleva e volta a acender o brilho dos olhos? 
Será o que Sol se atreveu novamente a aquecer o corpo? 
Será que o azul, como um berço, embala os sentidos e acorda as lembranças? 

Ao fundo uma gaivota sobrevoa as águas e pisca-me o olho num silêncio cúmplice. Os peixes encenam um teatro e contam-me as histórias de mil amores sussurrados aos búzios. Sorrio. 

Deixo de cantar e olho a ponte que se entristece com o meu silêncio. Fico ali parada muito tempo, olhando o espelho de água como uma projecção de um filme antigo. Vejo-me e revejo o turbilhão de onde, um dia, saíra. Procuro a margem como reforço da minha história e volto a cantar. 

Canto bem alto, fazendo abanar todo leito do rio e aumentar as ondas e rodopiar a ponte. A música vem do fundo do mar e fala de mim. Danço com as ondas ao ritmo do sol e vou-me afastando. Canto sem medo, canto sem dor, canto para mim. 

O dia chega ao fim, despeço-me do Sol e sorrio mais uma vez ao azul límpido das águas.

Liliana



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