domingo, setembro 04, 2011

Não posso adiar a vida, António...

Sentada, de perna cruzada, cabelo bem penteado e guardanapo no colo.
Sorrindo ligeiramente, e respondendo discretamente às perguntas que lhe são dirigidas.
Sem se intrometer nas conversas do grupo, mas mantendo a presença de forma educada.
Nunca respondendo a provocações nem entrando em assuntos controversos.
Nunca rindo alto, ou levantando o tom de voz.

Esperando, calada, que ele olhe para ela.
Sonhando com uma valsa, sem nunca dançar.
Pensando na possibilidade, sem nunca se atrever.

Com medo dos julgamentos alheios.
Com receio da negação.

Tantas regras e recalcamentos.
Tantas obrigações.
Tantas proibições e constrangimentos.

Deu consigo própria um dia, sentada, de perna cruzada, cabelo bem penteado e guardanapo no colo... embalsamada num expositor do Museu de arte Antiga....


Liliana



"Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração."


'Não posso adiar o amor' de António Ramos Rosa

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