terça-feira, junho 14, 2011

Adeus, Raúl. Não afastes os teus olhos dos meus.

Dizemos adeus tantas vezes durante o dia...
Aos filhos à porta da escola com os boné torto e a mochila às costas.
À senhora do café da esquina que todos os dias, com o mesmo sorriso, nos serve a "bica cheia" e o pastel de nata.
Ao carro, no lugar que demorámos quinze dolorosos minutos a encontrar e que nos obrigaram a dizer adeus à pouca boa disposição que, a ferros, arrancámos da cama.
Nos mil e um mail que enviamos e nos inúmeros telefonemas que vamos atendendo durante o dia.
Aos colegas que no dia seguinte lá estarão, invariavelmente, na secretária ao nosso lado.
A mais um dia vivido, depois do jantar.
Aos filhos que adormecem num segundo e nos deixam sozinhos com os tantos adeus que, antes de fecharmos os olhos, dizemos aos sonhos que, mais uma vez adiámos.

Adeus...

E os adeus não-ditos?!
Os que ficam no limbo entre o sim e o talvez?!
Os que sentimos que estão a caminho, mas não sabemos em que dia chegarão?!
Os que doem e massacram porque, o medo do que vem depois nos faz evitar e adiar o mais que podemos?!
Os que sabemos que temos de dizer, mas só a ideia de pronunciar a palavra instala uma tal mágoa, que nos recusamos a aceitar a sua inevitabilidade?!
Os que são ditos pela ausência, no absurdo do silêncio cortante que fere e nos deixa a sangrar no vazio?!

Dizemos adeus tantas vezes e em tantas situações dos nossos dias, que acabamos por esquecer o peso e o poder final, quase mortal, desta palavra escura...


Liliana




"(...)
Adeus, não afastes os teus olhos dos meus
Até quando ao longe a bruma a pairar
Se consuma entre as ondas do mar
(...)"


Raul Ferrão / José Galhardo

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