segunda-feira, dezembro 06, 2010

Deixa-me ver o céu de Lisboa, Alexandre...


Sabes porque os ponteiro giram sem parar nos dias em que queríamos parar o filme, desligar a televisão e mergulhar nos cobertores até o mundo se esquecer de nós? Porque somos os protagonistas da nossa vida e, neste palco, não há bastidores nem intervalo, as cenas sucedem-se de acordo com um guião que desconhecemos e que nunca controlamos.

Sim, eu também sinto a cabeça tonta nas manhãs em que acordo duma noite em branco recheada de sonhos confusos e muitas voltas na cama. Tomo duche e acordo os miúdos fingindo que o sol brilha por cima das nuvens cinzentas e corro pelo dia na esperança de encontrar o fio-condutor que me levou até esta peça.

Não te preocupes, porque até mesmo nos dias de vento e chuva, algures, brilha um arco-íris prontinho a levar-nos à terra de Oz. Há sempre uma forma de nos defendermos dos maus tratos dos diálogos, há sempre uma aliança possível de se realizar pelo bater dos calcanhares que, num ápice, nos afasta da acção e nos leva até ao calor duma lareira e à liberdade dum livro.

Sabes porque não param as nuvens e formam imagens que se desfazem para dar início a uma nova forma? Porque projectam no céu o verdadeiro filme de cada um. Projectam um código que apenas pode ser decifrado com o coração bem aberto e os olhos semi-cerrados. A chave, estou certa, está em saber aproveitar o vento e seguir a corrente que brota do mais íntimo de nós e desagua no monólogo mais complexo de sempre.

Não, neste palco não há bastidores e os intervalos dão-se apenas nas noites tranquilas de verão. Mas o facto de não controlarmos a acção e de desconhecermos o refrão da música que cantamos enquanto percorremos a estrada dos tijolos amarelos, não nos retira a voz com que nos apresentamos no dia das provas do guarda-roupa.

Vamos, esquece o relógio. Deita-te na relva e olha para as nuvens cinzento azul escuro, branco alaranjado, cinzento azul claro, vermelho rosado... abre o coração e vê o céu imenso que se despe para ti, apenas para ti, num desfile de mil estrelas com o final luminoso do início de dia e pede-lhe, baixinho, que te ajude a compreender!

Liliana


"Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração."

"Gaivota" de Alexandre O'Neill

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