quarta-feira, dezembro 08, 2010

Dá-ma a mão, João...


Eles deram as mãos, ligaram a aparelhagem com aquele LP já cheio de rugas, e deixaram-se embalar pela brisa morna das imagens que dançavam ao ritmo das noites passadas. A porta estava trancada, as janelas fechadas e o mundo inteiro ficara suspenso por entre a chuva que teimava em bater nos vidros.

O mar não entrou pela sala, deitando abaixo as paredes e criando um rio no meio deles. A terra não tremeu, abrindo frestas pelo chão e afastando um do outro. Nem as horas se atreveram a interromper a tranquilidade que o gira-discos cantava. E a vida, essa, limitou-se a suspirar enquanto eles, de mãos dadas, se espantaram com o admirável mundo que continuou a girar sem eles. Olharam um para o outro sorrindo e aprenderam a, apenas estar, sentir, acolher, respirar... viver!
Liliana



"Tenho livros e papeis espalhados pelo chão
A poeira de uma vida deve ter algum sentido
Uma pista, um sinal de qualquer recordação
Uma frase onde te encontre e me deixe comovido

Guardo na palma da mão o calor dos objectos
Com as datas e locais. Porque brincas, porque ris.
E depois o arrepio: a memória dos afectos
Que me deixa mais feliz

Deixa-te ficar na minha casa
Há janelas que tu não abriste
O luar espera por ti quando for a maré-vasa
Ainda tens que me dizer porque é que nunca partiste

Está na mesma esse jardim com vista sobre a cidade
Onde fazia de conta que escapava do presente
Qualquer coisa que ficou, que é da nossa eternidade
Afinal, eternamente.

Deixa-te ficar na minha casa
Há janelas que tu não abriste
O luar espera por ti quando for a maré-vasa
Ainda tens que me dizer porque é que nunca partiste"

"Deixa-te ficar na minha casa" - João Monge

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