segunda-feira, setembro 13, 2010

Como sonhas a tua cidade, Zeca?!

Abri a janela, o dia estava lindo, de um azul claro que dançava com o sol matinal ao som de uma leve brisa fresca. No canto da janela, quase imperceptível, uma ponta de papel de cenário parecia querer soltar-se. Fingi não ver e espreguicei-me, sorrindo para o dia lindo que me cumprimentava com o calor de Setembro. Saí ainda com o coração embalado no despertar tranquilo de um dia que se apresentava bem-humorado, penteado e até mesmo elegante.

As ruas espelhavam a boa disposição que o sol inspirava, e as pessoas, sorridentes, andavam calmamente sem atropelos, tropeções ou buzinadelas. Sentei-me na esplanada para tomar café e ao afastar a cadeira ouvi um ruído abafado de papel a rasgar. Olhei devagar para baixo da mesa, como quem tem a certeza que aloja um monstro no fundo da cama. Não havia forma de disfarçar desta vez, estava ali mesmo, um enorme buraco no papel de cenário cuidadosamente pintado a aguarela, e deixava transparecer o dia de chuva que atrás dele estava em cena.

A acção real decorria lá atrás, as personagens sabiam-no e instintivamente romperam o papel que nos vestia dum magnífico dia de verão, deixando a chuva e as nuvens e os sobrolhos franzidos e o trânsito e os atrasos e as correrias e a ansiedade inundar toda a rua. Tentei com todas as minhas forças colar e retocar o cenário que, aqui e ali, se enrolava e amachucava com a água deixando escorrer as tintas que se misturavam num castanho amarelado que escorreu até ao Tejo juntamente comigo.

Deixei-me ir naquela corrente que desde manhã, ao abrir a janela, me parecera existir mas que evitei aceitar. Os homens que tinha pintado como personagens de histórias de encantar começaram a parecer-se apenas com homens de pequenos horizontes, sem carinho, sem esperanças, sem sonhos por que lutar. As ruas que desenhara com mil janelas floridas e pequenos pátios onde todos se cruzavam para conversar, perderam a cor e o tempo esqueceu-se delas, deixando-as apenas envelhecer sujas tristes e sós. A música que escrevera com os pássaros a chilrear e as crianças a rir, foi absorvida pelo caos citadino duma realidade com tanto barulho que abafa qualquer tentativa de melodia.

Mergulhei no Tejo e pensei nadar sem parar, nadar sem sentido, nadar apenas, nadar até mais não conseguir. Mergulhei no Tejo e vi o cenário estranhamente encaixar como pequenas peças de um puzzle colorido. Mergulhei no Tejo e aquela cidade que se formava no fundo do rio era a minha cidade, com todas as cores e a luz que dela saiam e se reflectiam nas águas projectadando-se em alguns prédios e carros e ruas e pessoas.

Sentei-me na outra margem, escorrendo água, cores e sonhos que se misturavam na ondulação e olhei a minha cidade, sem maquilhagem. Conforme o sol se levantava fui-me apercebendo que o cenário no fundo do rio se espelhava em alguns recantos criando um ambiente mágico de história de encantar.

Levantei-me triste e contente, procurando á volta alguma ponta solta dum cenário que parecia estar a mudar. Voltei para casa e podia jurar que por entre as casas sem graça e as pessoas apressadas, encontrei homens de olhos meigos, mulheres com asas de fada, crianças cantando, e até alguma alegria partilhada entre perfeitos desconhecidos.

Preparei-me para me deitar, não sem antes abrir um grande rolo de papel de cenário onde sonhei mais um conto para, de manhã, a cidade encantar...

Liliana


"Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?"

"Utopia" de José Afonso