quarta-feira, setembro 29, 2010

Tens medo da noite, Sophia?!

Os ponteiros rodam com a impaciência do reflexo da lua nos lençóis amassados da cama. As sombras da rua passam no tecto um filme mudo, onde as figuras humanas se diluem, finas e compridas, como numa dança de bruxas. Viro-me na cama tentando não tocar no teu corpo quente que respira ao ritmo compassado da tranquilidade que precede todos os tremores.

Fecho os olhos e desvio o olhar das memórias que teimam juntar-se ao sonho que me prende. A noite traz consigo os fantasmas para não se sentir só, enquanto a cidade se debate para não os deixar entrar na cama.
Arrefeço. O teu corpo encolhe-se quando me chego a ti. Porque será que adormeces sempre primeiro que eu? Poderias velar o meu sono e afastar os pesadelos com a mão enquanto me descrevias o sonho mais colorido do mundo, se não dormisses sempre antes de mim. Saberia eu que eram tuas as palavras que inspiravam o mundo onde me sonharia, numa realidade sem medos ou constrangimentos?! Acendo o rádio, quem sabe a música me embala a alma e me eleva num sono calmo de criança.
As sombras jogam às escondidas comigo e não consigo dormir. Os ponteiros respondem apenas aos seus impulsos e avançam sem respeito ao meu medo. Estás aqui tão perto e, no entanto, tão inacessível. Conseguira eu estender-te a mão e tu enroscar-te-ias a mim como uma concha que aninha a vida protegendo-me do mundo? Tento chegar-me a esse colo, mas não consigo mexer-me. Fecho novamente os olhos e procuro acompanhar o ritmo a tua respiração. Imagino que me encosto ao teu corpo, que me enrosco e que me abraças com a mesma calma com que respiras, profundamente. O teu calor traz-me a calma e envolve-me num sonho morno onde e a noite se vai dissolvendo com os seus fantasmas e medos e sustos e arrepios.
Inspiro fundo, contigo. Estou longe mas sonho-me perto, tão perto que consigo sentir a tua respiração na minha pele. Cantas-me uma morna para embalar o meu corpo de menina tão frágil nas sombras da noite e deixo-me adormecer ao teu lado, sem chegar a conseguir esticar o braço na tua direcção.


Liliana



Noite das coisas, terror e medo
Na aparente paz dispersa
Sobre as linhas caladas.
Efeitos de luz nas paredes caiadas,
Gestos e murmúrios de conversa
No mundo estranho do arvoredo.


"Noite das coisas"
de Sophia de Mello Breyner Andresen

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