terça-feira, julho 27, 2010

Vamos voar de passarola, Etty?!

O dia fora invulgarmente quente e o ar que entrava pelos vidros era uma espécie de bafo que sai do forno ao tirarmos o tabuleiro da carne assada. O bebé brincava com os pés tentando tirar os "patos" e libertar os dedos também abafados e quentes naquela noite de lua cheia e céu avermelhado.

Ela vinha de janela bem aberta e braço de fora, como as crianças, fazendo da mão um estranho papagaio que flutua com a velocidade do carro. Quem dera o papagaio se transformasse numa gigante vela e o carro, qual passarola voadora, se elevasse nos céus até chegar à lua. Fosse a vontade da alma dela suficiente e assim teriam alterado o rumo, com a naturalidade de quem decide parar para tomar café.

O carro não subiu e o calor do alcatrão manteve-se empurrando os seus pensamentos para uma passarola que voava para longe dos dias que correm em torno de perguntas e questões e inquietações. Pudesse ela voar nesse grande pássaro e ver o mundo lá de cima, como a lua que ri das nossas correrias... Pudesse ela voar dali para fora, num grande pássaro com asas de pano que a levasse para dentro dela e a colocasse no seu lugar, o lugar certo no grande tabuleiro de xadrez do mundo. Ah! Então munida das regras (sempre as regras) ela saberia o que fazer, a jogada certa para o xeque-mate.

A mão papagaio voava ao sabor das curvas e contra-curvas e os "patos" do bebé saltavam um a um até ao seu colo. Mas ela já não estava lá, no carro, com o bebé, com as questões, com as dúvidas. Ela estava já na sua passarola que, mais tarde quando todos estivessem a dormir, a levaria até ao céu, até à lua, às estrelas e ao colo mais profundo e íntimo de si mesma.

Chegaram a casa e, com bebé ao colo sem "patos" e muito sono, subiram e dançaram a valsa à deux temps, deitando o bebé, dando-lhe o leite, vestindo os pijamas... mas ela ficou por ali "só mais um bocadinho". Então, finalmente sozinha começou a construir, comprimido a comprimido, o grande pássaro de velas de pano branco alimentado com o poder dos sonhos. Aos poucos, quase imperceptívelmente, começou a esvoaçar. Primeiro na sala onde estava, depois por toda a casa.

Foi ver o bebé, tapou-o com o lençol, deu um beijo ao marido e, antes de abrir a porta e finalmente sobrevoar o jardim e as árvores e os carros e as casas e o Tejo e a sua tristeza, pensou na sua vida. Pensou naquela estrada, estranhamente amarela, que adoptara como sua e que, de certeza, não acabava na passarola onde estava sentada. Percebeu que o caminho que desbravara até ali tinha um outro significado, maior que ela, maior que a sua tristeza, maior até que aquela enorme passarola de panos brancos. Então olhou para baixo e viu claramente que esse significado não se encontrava aqui, nem ali, nem em lado nenhum neste planeta a que chamamos Terra, era parte de uma energia que a acompanhava e que, de certa forma, ela também alimentava sempre que se erguia e levantava a cabeça abrindo os braços para (a)colher palavras e devolver esperança.

Foi então que a passarola baixou, sem força para suportar o seu voo, e poisou mesmo ao lado da estante dos livros onde, mais ou menos empilhados em várias camadas, estremeceram deixando cair alguns aos seus pés. Pegou num e começou ler, como quem se esquece de tudo o que até ali fizera.

Entraram os bombeiros, saiu a ambulância, chegaram ao Hospital, entubaram-na, medicaram-na, deitaram-na, fizeram-lhe perguntas, deram-lhe soro, tiraram-lhe sangue e no meio de uma noite, no mínimo sui geniris, mais uma vez ela encontrou-se fugindo da sua essência, voando para longe do seu pequeno, ínfimo, espaço de divino.

Voltou a casa atordoada, ainda com alguns comprimidos viajando no sangue. Olhou para o espelho e viu uma sombra baça de si. Quantas vezes mais teria de ver o arco-íris para não duvidar que sabia o caminho para casa?!
Liliana



"Dentro de mim há um poço muito fundo. E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterado. Então é preciso desenterrá-lo.

Imagino que há pessoas que rezam com os olhos apontados ao céu. Esses procuram Deus fora de si. Há igualmente pessoas que curvam profundamente a cabeça e a escondem nas mãos, penso que essas pessoas procuram Deus dentro de si."

"26 de Agosto (de 1941), teça-feira à tarde"
in "Diário de Etty Hillesum
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