quinta-feira, julho 22, 2010

Onde estão os degraus, Zeca?

O telefone estremeceu em cima da cómoda da entrada quando ela atirou o primeiro sapato ao ar. Já ninguém ligava às suas descargas de nervosismo, era assim como uma inevitabilidade que não surpreendia ou interessava. O segundo sapato bateu na moldura de madeira trabalhada e pintada de rosa velho, obrigando a fotografia de família a um rodopio quase mortal, as caras assustadas e o desequilíbrio geral despentearam por completo aquela imagem ideal de família americana com sorrisos pepsodente.

A porta fechou-se, indiferente aos sapatos e à raiva que esvoaçava no ar. Dentro de casa o tempo abrandou e todos os movimentos pareciam saídos de uma peça de ballet moderno, enquanto ela corria em volta das divisões, como quem sobe e desce degraus, respirando fundo para não rebentar e sujar as paredes com os estilhaços de mais uma zanga.

Procurou o canto mais escuro da casa e sentou-se enrolada aos joelhos, indecisa entre descobrir o que fazer para se acalmar e aceitar o facto de ninguém a ver no seu desespero. Estava sozinha numa casa cheia de gente que passava por ela - d e v a g a r - como se em todas as histórias normais houvesse uma personagem sentada num degrau a chorar.

Levantou-se de repente como se o mundo dependesse do seu esforço e foi varrendo os filhos até todos estarem nas camas, dando sorrisos e beijos como quem distribui bolachas à hora do lanche. Por dentro os sapatos ainda no ar, acertando bem no meio da fotografia e atirando o telefone ao chão.

Sentou-se em frente à televisão para limpar as ideias e arrefecer os ânimos. Entrou em duas ou três séries de seguida e em breve estava tão tranquila que já não sabia onde deixara os sapatos. Procurou por toda a casa até os encontrar desamparados na entrada. Já não se lembrava bem o que acontecera, algo lhe dizia que se tinha zangado, mas na verdade preferia não se lembrar.

A porta abriu-se e ela recebeu-o com um sorriso rasgado. Perguntou-lhe se estavam bem, ele respondeu calmamente que sim, e ela aceitou a inevitabilidade de uma paz que lhe parecia tão apetecível como um chocolate a uma criança. Abraçou-o e trancou a porta. Ao passar para o quarto endireitou a fotografia de família que estranhamente lhe parecia diferente. O tempo voltara a correr inevitavelmente como antes.

Liliana



"Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa"

"Era um redondo vocábulo" de José Afonso

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