quarta-feira, junho 23, 2010

Tens um regador, José?

Alguém me disse que não podemos deixar de regar as árvores secas, sob pena de nunca mais voltarem a florir. Alguém me disse que é nessa esperança que reside toda a força da fé, na esperança de que um arbusto ressequido volte a florir, desde que acreditemos.
Tenho um regador azul-claro que não consigo deixar de usar. Todas as manhãs, ao nascer do sol, cubro a calçada de uma camada cristalina feita dessa esperança, e aguardo que em cada canto nasçam flores, em cada passeio floresçam árvores e em cada pessoa se abra o coração.
Alguém me disse que tenho de aprender a distinguir os troncos secos dos postes de electricidade...
Continuo de regador em punho ainda que nada aconteça, porque acredito que há terras muito áridas que apenas uma grande quantidade de água fará reviver. Compulsivamente continuo a regar, porque preciso de acreditar que este regador azul-claro dá sentido ao meu caminho, que com ele posso fazer florir uma flor vermelha no meio do deserto.
Alguém me disse que não posso continuar a regar enquanto me deixo secar por dentro, pela indiferença, pela imcompreensão, pela inercia. O que esse alguém não sabia é que tenho um mar inteiro dentro mim que daria para regar o maior jardim do planeta durante anos a fio...
Esta manhã bem cedo, ao nascer do sol, voltarei a sair com o meu regador azul-claro. Hei-de cobrir a calçada duma camada cristalina feita de esperança enquanto acredito que, algures neste deserto chamado Lisboa, nasça uma flor, floresça uma árvore ou se abra um coração. É esta a minha essência, nada posso contra ela...
Liliana





Ser solidário assim pr’além da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz

De como aqui chegar não é mister
Contar o que já sabe quem souber
O estrume em que germina a ilusão
Fecundará por certo esta canção

Ser solidário sim, por sobre a morte
Que depois dela só o tempo é forte
E a morte nunca o tempo a redime
Mas sim o amor dos homens que se exprime

De como aqui chegar não vale a pena
Já que a moral da história é tão pequena
Que nunca por vingança eu te daria
No ventre das canções sabedoria

Ser solidário assim pr’além da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz

José Mário Branco
do álbum 'Ser Solidário' 1982

Enviar um comentário