terça-feira, junho 15, 2010

Como vives na tua história, Jeanette?!


Vivo entre dois mundos. O dia tem sempre uma marca d'água que me embala desde a manhã até ao lusco-fusco, quando os besouros saem da terra e, cegos, se aventuram na lentidão do pôr-do-sol. É neste instante, em que o tempo flutua no limbo de não ser dia nem noite, que eu saio do lado brilhante marcado pela luz e, cega, me aventuro por entre as estrelas até à face escondida da lua.
Navego na linha do horizonte desta dupla narrativa que supera e recupera o tempo, num eterno (re)começo. Não há marés no correr dos dias, há uma força interior que nos impele a avançar sobre as ondas ou simplesmente seguir as águas do mar-morto. É esta força que me leva a embarcar nas palavras e, dentro delas, embrulhar todos os sentidos como quem arranja um cesto de pick-nick. No cesto, daqueles com duas abas redondas divididas pelo arco da pega, encaixo num dos lados o mundo dos outros, o que me dizem, o que vêem, o que calam, o que fazem e o que destoem. Do outro lado embalo o que sinto, as emoções e os afectos, sem fronteiras nem limites nem julgamentos nem condenações.
Sinto-me estrangeira no meio dos "meus", como personagem sem texto nem contexto. Às vezes jogo xadrez na mesa do jantar de família, ou no tabuleiro dum encontro de amigos. Outras escondo-me no meio de palavras ocas onde me enrosco encostando a cabeça num "pois, pois" ou esticando as pernas por cima dum "está tudo bem".
Há, claro, momentos em que as palavras ganham vida e enchem-se de significados. Então, acordo e num sobressalto entrego-me e, como um besouro cego que voa ao pôr-do-sol, exponho a narrativa como se a terra fosse o local mais seguro do mundo e os Homens os seres mais delicados e bondosos de todos os tempos. Gosto de imaginar que há um arco-íris sobre o qual podemos andar verdadeiramente despidos, mas nem sempre ele brilha no momento em que decido tirar a roupa...
No infinito das estrelas vive, sem dúvida, a minha derradeira narrativa, a que se sobrepõem ao silêncio dos corações arranhados e vence o medo das páginas brancas. É aí, dançando por entre as fases da lua, que encontro as palavras com que, me despindo me visto. Num eterno (re)começo de esperança.
Liliana




"Conta-me uma história, Pew.
Que tipo de história, pequena?
Uma história com um final feliz.
Não existe tal coisa no mundo inteiro.
Um final feliz?
Um final."
in "A menina do Farol" de Jeanette Winterson
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