terça-feira, maio 25, 2010

Mas eu interrogo-me, Alberto...

Tenta explicar-me, por favor. Eu sou um bocado lenta.
Explica aquilo que eu já sei, porque já o sinto, de mansinho.
Vá, ajuda-me lá a entender, tenho esta maldição pegada ao coração
tenho sempre que analisar e perceber o como, o porquê, o quando.
Para um dia, quiçá, aceitar o que tem de ser.
Porque é isso não é? Trata-se de aceitar aquilo que é,
apenas porque tem de ser.

Sou teimosa, eu sei. Tenho este karma preso a mim.
Seguem-se-me as palavras "e se..." como uma sombra
e jogo com a luz para projectar as imagens que combino conforme a fase da lua.
Brinco às casinhas dentro de mim mesma,
espreito pela janela e pergunto "tem mesmo de ser assim?!"
abro a porta da rua e sussurro "podia ser assado..."
Descubro imensas portas e encontro inúmeras janelas
tantas que, às vezes, acabo por perder o fio à meada.

Vá, explica-me lá o que já me disseste em mil formas
mas que preciso de ouvir l e t r a a l e t r a,
para gravar na areia antes que o mar volte.
Sei que se o disseres, consigo perceber.
Mas não pode ser de mansinho,com medo de me partir
é que sou um bocadinho lenta e, ás vezes, perco-me em divagações.

Pronto, acho que percebi tudo o que já sabia.
É avançar, aceitando aquilo que é porque tem de ser.
No entanto, podia jurar que, atrás daquela cadeira
espreita um minúsculo e tímido "tem mesmo de ser assim?!"
Liliana




O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta ...
Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo...
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o sol ...
Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso...)


"O Meu Olhar Azul como o Céu" de Alberto Caeiro
in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXIII"
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