sexta-feira, novembro 06, 2009

Ouves a música, Vergílio?

Estou sentada no chão, encostada à parede no canto do quarto, as luzes estão apagadas e o luar, curioso, espreita pelas janelas abertas e ilumina os espelhos ondulados da parede em frente, que ecoam a luz velada por todo o espaço.

Estou sentada no chão, enrolada à volta dos joelhos, embalando-me ao ritmo de uma música que nasce dentro de mim e se espalha pela cidade como um radar em busca de movimento, esvoaçando por entre as árvores adormecidas, os passeios vazios, os carros quietos e as janelas apagadas, na esperança de acordar os poucos que, mesmo a esta hora, se atrevem a ouvir o silêncio da noite.

Estou sentada no chão encostada à parede do canto, e no entanto vejo-me em pé, no meio do quarto, olhando a rua reflectida nos espelhos ondulados. Olho para os espelhos e só consigo imaginar-me desconfortável, com vontade de fugir para o canto e encostar-me à parede, longe dos olhos da lua e das árvores adormecidas e dos passeios vazios e dos carros quietos. Acima de tudo longe da solidão que sai das janelas apagadas, que me olham espantadas do lado de fora da noite.

Estou sentada no chão, enrolada à volta dos joelhos e penso como seria se estivesse de pé, no meio do quarto olhando a lua, que se atreve a entrar pelas janelas abertas, olhos nos olhos. Estariam as árvores realmente adormecidas, se vistas com atenção? Se espreitasse pela janela do meio, estariam verdadeiramente vazios os passeios? E o que haveria para lá dos carros que, daqui, me pareciam tão quietos?

Estou sentada no chão, no canto do quarto. As janelas reflectidas nos espelhos ondulados da parede em frente estão apagadas e silenciosas. Apenas a lua, curiosa, me espreita.

Oiço ecos que me chegam em reflexos ondulados e se misturam com o luar que entra pelos espelhos e tráz consigo a luz de outras janelas que se acendem num cântico que procura rimar com o meu, mas não o encontra... sentado no chão encostado à parede do canto.

Os espelhos olham-me de lado e a parede empurra-me as costas.

Levanto-me devagar para me ver bem no reflexo ondulado dos espelhos. Avanço até ao centro do quarto e, embalada pela música que nasce dentro de mim, deixo-me misturar com os ritmos que me chegam da rua...

Liliana



"Por entre os sons da música,
ao ouvido como a uma porta que ficou entreaberta
o que se me revela em ter sentido
é o que por essa música encoberta

acena em vão do outro lado dela
e eu sinto como a voz que respondesse
ao que em mim não chamou nem está nela,
porque é só o desejar que aí batesse."


"Por Entre os Sons da Música" de Vergílio Ferreira
in 'Conta-Corrente 1'
Enviar um comentário