quinta-feira, novembro 19, 2009

Contas-me uma história, Mia?!

Há um Conto que me tem perseguido nestes últimos tempo. Aliás, desde que tropecei nele parece que se me colou à pele, anda atrás de mim como uma sombra que, conforme a orientação do Sol ora me antecede ora me persegue, mas não me deixa esquecer que está ali...

Andei meio perdida, sem perceber muito bem o que ele queria comigo. É que ser "assombrada" por um Conto pode ser muito imcomodativo, principalmente quando ele descobre o caminho para as nossas ideias e as invade com as suas palavras, frustrando qualquer tentativa de pensamento estruturado e aparecendo nas alturas menos apropriadas, como no meio de uma conversa com a velhota do andar de cima que me pedia para apanhar o pano da loiça que lhe caiu quando o estendia e se enrolou, confortavelmente na minha corda da roupa.

Um dia, cansada com a intrusão e já sem saber o que fazer, resolvi sentar-me na sala, abrir o livro na página certa, e olhá-lo olhos nos olhos. Deixei-o sair com calma sem o interromper, e no meio das entrelinhas (porque os contos, os bons contos estão recheados dessas mensagens subliminares que vivem nas entrelinhas e só se mostram aos mais atentos) lá entendi que o me pedia.

Falava tranquila e pausadamente, sentado no sofá em frente de pernas cruzadas. Repetia cada frase de varias formas diferentes, como quem fala com uma criança. Foi-se tornando claro que falava tanto dele como de mim, chamava-me irmã, personagem de um grande conto que, não cumprindo o seu papel, deixara toda a acção suspensa num limbo temporal. (Sabem que a função dos Contadores de Histórias é libertar contos, ajudá-los a seguir caminho - livres, espalhá-los como quem lança sementes ao vento...). E, lançando assim as palavras em forma de bombas que rebentavam dentro de mim e ecoavam pela sala, foi-se deixando apagar, voltando para o livro onde, confortavelmente, se instalava de novo nas imagens e personagens e figuras de estilo de Mia Couto.

Fiquei muito tempo sozinha na sala, com o livro no colo, aberto na página certa, e o conto ao fundo da sala, olhando para mim pelo "rabinho do olho" enquanto se misturava com lembranças de outras histórias que dançavam alegres dentro de mim.

Levantei-me num remoinho de palavras soltas que saltitavam dos fios condutores das muitas histórias que me assaltavam a memória. Peguei em cada uma com muito cuidado para não as magoar, e enrolei cada história num novelo colorido que guardei no baú da imaginação. Tinha pressa, não queria demorar (são assim os Contadores de Histórias, lentos no processo de identificação, mas impacientes assim que sentem um conto "re"nascer em si), tinha um Conto para libertar e o mundo inteiro a quem o contar...
Liliana Lima
"(...)
- Posso pedir uma qualquer coisa?
- Peça.
- Me dê um pouco mais da sua acompanhia. Só isso: acompanhia.
Ainda hesitei, inesperando aquele pedido. O homem nem me fitava, estivesse envergonhado. E assim, de cabeça baixa, insistiu:
- É que, sabe, eu não tenho ninguém. Antes ainda tinha quem me dispensasse migalha de conversa. Mas, agora, já nem. E me dá um medo de me sozinhar por esses aís.
(...)"
"O Homem da Rua" de Mia Couto
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