terça-feira, outubro 20, 2009

Que horas são, Alberto?


Na casa dos meus bisavós havia um relógio que tocava a cada meia hora, imitando o verdadeiro, o da igreja, que se via da janela da sala que dava para o quintal outrora com porcos e galinhas, que eu nunca cheguei a conhecer, e hoje com uma selva de ervas e restos de memórias há muito esquecidas numa espécie de cemitério de trastes velhos e partidos. A hora certa era precedida dos ding-dongs da praxe e anunciada com a pompa e circunstância das batidas certas. Já a meia-hora, menos conceituada, tinha direito à cantoria mas sem anúncio especial.

Lembro-me de contar as batidas depois dos ding-dongs desafinados que acordavam o silêncio nocturno e ecoavam pela casa estremecendo os corpos encolhidos debaixo dos cobertores de papa. Gostava daquele ritual, as horas que pediam licença antes de passar, fazendo questão de perguntar - a senhora dá licença? quantos são?... Todo o mundo girava a um ritmo diferente, mais educado, sem pressas nem precipitações. Até o sol, que em Lisboa se perdia de vista muito antes da hora certa, ali parecia tão correcto, tão cavalheiro abrindo a porta à hora que, educadamente, entrava antes dele anunciando a sua saída.

A porta da loja, ao lado da que dava acesso à casa, também dançava ao ritmo das horas que o velho relógio cantava. Logo depois das nove batidas, a minha tia descia as escadas a correr e tirava os tapumes verdes que tapavam a montra que mais não era que os vidros da porta que dava directamente para a escola, que parecia esperar também pelas batidas certas antes de deixar entrar os miúdos barulhentos que se empurravam à frente do portão. Depois, assim que os ding-dongs da "meia-hora", que era como o meu avô chamava ao meio-dia e meia, soavam, logo os passos da minha tia pela escada acima denunciavam que era hora de almoço. E ao fim dia, mesmo sem clientes na loja, eram as sete badaladas que autorizavam o fecho das portas, e de novo os tapumes verdes a encher a grande papelaria de um escuro impenetrável.

As brincadeiras, as casinhas e as lojas que montava com a minha prima na escada da entrada ou no canto do balcão, essas passavam com a maré dos amuos e das gargalhadas estridentes, aparentemente alheias às batidas do relógio mas totalmente controladas por elas. Ainda não são horas de ter fome! Está na hora do almoço! Quietas que já não são horas de fazer barulho!...

Na casa dos meus bisavós havia um relógio que tocava a cada meia-hora e que me dava a sensação de ser o centro da terra a partir do qual tudo e todos rodavam numa dança coordenada, como nos musicais, mas em versão lenta tipo "une valse à trois temps" onde nada ficava por fazer e a ninguém faltavam horas em cada dia que acabava com as doze badaladas que ecoavam pela casa estremecendo os corpos encolhidos debaixo dos cobertores de papa...

Liliana



"Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez..."

Alberto Caeiro,
in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLIV"
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