terça-feira, setembro 08, 2009

Regressemos a casa, Junqueiro!

Vinda de tão longe...
Avancei pela avenida sem me deter naquele receio que espreitava atrás de um sinal. Parecia que tinha passado todo um mar de dias desde a última vez que fiz este caminho, olhando-o ao fundo, luminoso, alegre, inspirador. Segui confiante, sorrindo, ansiosa de o ver aparecer para me abraçar.

Surgiu num repente, e sem pedir licença invadiu todo o horizonte abafando o barulho, como se nada existisse para além de nós os dois, frente a frente, depois do que parecia ter sido tanto tempo. Sorri, apressei o passo esquecendo os carros e os sinais vermelhos e as passadeiras e as linhas de comboio e tudo o me prendia e me atrasava naquela distancia que parecia aumentar de cada vez que me aproximava.

Respirei fundo e mergulhei naquele aroma tão diferente do mar em que perdera durante os dias, ou meses, ou anos até, em que me ausentara. Afinal estava ali, esperara por mim, mantivera-se a fiel a nós e sem comos nem porquês recebia-me de braços abertos "como sempre, como antes".

Na verdade soubera-o sempre lá, sentira-o sempre pacientemente presente. Por mais que me afastasse mantivera a certeza daquele momento, daquele reencontro comigo através dele. Foi sempre assim, através dos tempos (dos meus tempos), dos meus meus ritmos, dos meus amores e desamores. Foi sempre o fio condutor desta minha história que, em círculos, avança e recua conforme as marés.

Vinda de tão longe... volto sempre a este rio.

Liliana Lima





"Ai, há quantos anos que eu parti chorando
deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
canta-me cantigas para me eu lembrar!... (...) "


"Regresso ao Lar" de Guerra Junqueiro
in "Os simples"
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