quinta-feira, setembro 10, 2009

Agora não, Sérgio...

Agora não, não tenho tempo para te dar atenção. Se me perdoares vou, neste preciso momento, congelar este sentimento alegre que me invade quando me olhas fixamente nesse olhar de gaivota sobre a maré baixa do fim de tarde. Gostava de te dar atenção, de te dizer as palavras que te confortariam e te acenderiam o sorriso calmo, meigo... Mas agora não posso, amanhã falamos, mais logo voltamos aqui a este instante em que eu te olho também e a maré sobe. Tenta entender, o tempo é curto...

Agora não, não consigo concentrar-me no que estás a dizer. Sinto algo amargo que entristece a luz escondido atrás dessas palavras vazias, por entre esses olhos nus, sem expressão. Como gostaria de conversar, ouvindo atentamente até, na voz, renascerem as certezas e, nas mãos, poisarem os desejos. Tem paciência, mas vou ter de hipotecar este sentimento de mau estar que me segue como uma sombra. Pode ser que logo, se tudo se apressar e o telefone não tocar. Não posso, tu sabes, tenho tanto de fazer...

Agora não, as crianças estão acordadas, os vizinhos estão em casa, a noite ainda agora começou, a televisão está ligada e eu tenho de ver o debate. Tenho de amarrar este impulso que tenta o corpo e acorda um sentimento quente de noites de verão. Na verdade gostava de responder ao teu corpo, deixar-me avançar, deixar-te embalar, mas a roupa no cesto, a loiça por arrumar e a televisão que me puxa sem me deixar soltar. Quem sabe mais logo, se ainda estiveres aí, neste sentimento quente...

Agora sim estou aqui, o sol está quente e a casa calma. O computador desligado e a televisão calada, os vizinhos fora e o despertador apagado. Agora sim, estou aqui sem horas nem pendentes, sem pressas nem preocupações. Vá, fala-me que eu agora posso sentir-te! Vá, olha-me que eu agora posso ouvi-te! Vá, toca-me que eu agora posso responder-te! Agora sim, que a lua brilha e a casa está calma. Agora não?! Agora não, vais ter de congelar o sorriso? Agora não, precisas de hipotecar o sentimento? Agora não, tens de amarrar a vontade? Agora não... Quem sabe amanhã...


Liliana Lima


"(...)
Não fales, que o bebé ainda acorda
não grites, que o vizinho ainda acorda
e não me olhes, que o amor ainda acorda
deixa-o dormir o nosso amor, um bocadinho mais
deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais

E o homem, de pé
Parece um rapazinho a ver se compreende
e grita e diz que ele também não se vende
que quer a paz mas de outra maneira
e nem que essa noite fosse a derradeira
veio afirmar quer ela queira ou não queira
que os dois ainda têm muito a aprender

Se temos...! Diz ela
mas o problema não é só de aprender
é saber a partir daí que fazer
e o homem diz: que queres que responda?
Não estamos no mesmo comprimento de onda...
Tu a mandares-me esse sorriso à Gioconda
e eu com ar de filme americano

Somos tão novos, diz o homem
e agora é a vez de a mulher se impacientar
essa frase já começa a tresandar
é que não é só uma questão de idade
o amor não é o bilhete de identidade
é eu ou tu, seja quem for, ter vontade
de mudar e deixar mudar

Não fales, que o bebé ainda acorda
não grites, que o vizinho ainda acorda
e não me olhes, que o amor ainda acorda
deixa-o dormir o nosso amor, um bocadinho mais
deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais

E assim se ouviu
pela noite fora os dois amantes falar
e o que não vi só tive de imagina
ré preciso explicar que sou o vizinho
e à noite vivo neste quarto sozinho
corpo cansado e cabeça em desalinho
e o prédio inteiro nos meus ouvidos

Veio a manhã e diziam
telefona ao teu patrão, diz que hoje não vais
que viveste uns dias assim tão brutais
e que precisas de convalescença
sei lá, inventa qualquer coisa, uma doença
mete um atestado ou pede licença
sem prazo nem vencimento, se preciso for
(espero que não seja preciso, porque não
sei como é que eles vão viver sem os dois salários...)

Vá fala que o bebé está acordado
e vizinho deve estar já acordado
e o amor, pronto, também está acordado
mas tem cuidado, trata-o bem
muito bem, de mansinho
que ainda agora vai pisar outro caminho."

"2º andar direito" de Sérgio Godinho
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