quarta-feira, junho 03, 2009

Porque se fechou o teu coração, António?


Vi-te ontem a subir a rua, sério e distraído, se bem te conheço ias para o cinema. Se te conhecesse ainda, quero dizer. Hoje em dia somos perfeitos desconhecidos. Se nos tivéssemos, de facto, cruzado como seria? Ainda as discussões que te prendem numa eterna zanga e sempre as razões que validam o meu silêncio.

Atravessaste a rua sem olhar para os carros e acordaste as dúvidas que dormiam ao lado da culpa num colchão de mágoas por resolver. Quem se afastou primeiro, quem se magoou primeiro, quem se defendeu e se escondeu primeiro...

A verdade é que, aqui do conforto do banco do carro, este lado da rua parece-me ter sido a saída mais fácil. O difícil seria ficar onde as estrelas são incertas e o céu nem sempre é azul. Mas os meus passos precisam da confiança de que a terra é redonda e o homem já foi à lua, mesmo que a verdade não seja única e universal. Não há actos heróicos no dia-a-dia das pessoas comuns que se cruzam na rua ao fim do dia em Lisboa.

Vi-te ontem, subias a rua e eu parada no sinal num misto de sobressalto assustado que se juntou à saudade e deixou um sabor amargo na boca. Tenho a certeza que empalideci, a minha cara qual casa alentejana ao sol duas janelas tristes e uma porta fechada, enquanto te via atravessar a rua, mesmo à minha frente.
Liliana Lima







"Um coração quando se fecha faz muito mais barulho que uma porta."
António Lobo Antunes in "Livro de Crónicas"
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