segunda-feira, junho 01, 2009

De que falam os teus sonhos, Fernando?

Os sonhos são as coordenadas do nosso caminho. Sonhamos acordados com pequenos sinais que nos inspiram e nos levam a percorrer a Terra em busca de pequenos reflexos de algo que dá sentido à estrada que vamos fazendo, de joelhos no chão, alinhando os tijolos um a um, num desenho que só as estrelas conseguem traduzir.

Às vezes sonhamos verdadeiramente, de olhos fechados e coração aberto. Nessas alturas somos mais nós, desistimos menos e arriscamos mais, longe das hesitações e medos que nos refriam os movimentos quando acordados. Então sentimo-nos voar, a imaginação dança e, sem rédeas, dá as cartas, seguindo as coordenadas que a intuição nos vai mostrando mas nós, habilmente, vamos abafando no fundo do cesto à medida que o enchemos de tarefas e o esvaziamos de sentido.

Há sinais que nos vão aparecendo, pequenas fagulhas que giram no ar e, sem pedir licença, nos prendem a atenção num canto de sereia que nos fala de luz e cor no meio do trânsito que, de repente, deixa de nos incomodar. Outras vezes somos arrebatados com uma certeza tão forte que encandeia tudo o que nos rodeia reduzindo-o a pó. Então, por entre as ruínas das antigas certezas, erguemos um novo farol abastecido apenas pelo nosso brilho interior que se torna mais claro e mais forte como o nascer do sol em pleno verão.

Os sonhos são as coordenadas do nosso caminho. Às vezes ouvi-los disfarçados de suspiros que nos dizem que o mar nos espera em tufos de azul profundo, ali mesmo, ao fundo de uma rua que teimamos não descer. Outras vezes sentimo-los protestar numa estranha melancolia que nos invade nos fins-de-tarde compridos de Maio. Outras vezes, ainda, aparecem-nos em pequenos esgares de confiança que nos assaltam o olhar perante algo que imediatamente se liga ao mais íntimo de nós e nos inspira, nos emociona e nos cheira a conforto.

Os sonhos são as coordenadas do nosso caminho. São os que arriscam segui-las, e vão montando o puzzle sugerido em forma de pistas sonhadas pela intuição, que descobrem as razões que os fazem sorrir e se encontram, um dia, frente ao seu farol e o percebem capaz de iluminar, não só o seu caminho, mas também o de outros que, pelo caminho, se vão aproximando.

Liliana Lima









"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,


E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.


Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!"


"O Infante" de Fernando Pessoa, in Mensagem
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