segunda-feira, maio 25, 2009

Como é o brilho dos teus olhos, Sérgio?


Todos os olhos têm um brilho único. Há brilhos que nos acendem uma luz e nos aquecem por dentro ao primeiro olhar. Brilhos há que se acendem apenas depois de vários olhares. A verdade é que sempre que uns olhos acendem o seu brilho para nós, os nossos sentem-se em casa e, sorrindo, emitem de volta um brilho que, em conjunto, ilumina os corações de quem nos olha.

Todos os olhos têm um brilho único. Desde o primeiro olhar que trocámos, senti que o teu brilho falava de paz, de tranquilidade, de aceitação. Os teus olhos sorriem contigo e brilham uma luz que me aconchega no colo enquanto me permite brilhar também. O brilho dos teus olhos está sempre comigo, acompanha-me e dá-me confiança, sorri-me e ensina-me a brilhar mais forte. É no brilho dos teus olhos que os meus se despem e, em paz, se entregam e se permitem ser inteiros no brilho que emitem.

Todos os olhos têm um brilho único. Lembro-me que na primeira vez que vi os teus, foste tu que referiste o brilho dos meus. Quando, numa esplanada com cheiro a Tejo, em vez de cumprir as tarefas da agenda nos perdemos entre partilhas, sorrisos e algumas mágoas, reconheci nos teus olhos aquele brilho que nos aconchega e aquece nas noites frias de inverno. Desde aí, por muitos desencontros que se atravessem no nosso caminho, os nossos olhos sabem que estão sempre abertos para, mutuamente, se acolher.
Todos os olhos têm um brilho único. Os teus, naquela tarde ensolarada em que nos sentámos à mesa, falaram-me de aconchego, de tranquilidade, de ternura, de algo quente e familiar. No meio de um almoço que pedia uma conversa organizada e um pensamento estruturado, ouvia-os em amena cavaqueira com os meus. Despedi-me com um "até logo" de quem tem a certeza que se vai voltar a encontrar numa qualquer curva do caminho. Mais tarde, quando nos reencontrámos, reconheci de imediato o brilho que emites e soube que estava em casa.

Todos os olhos têm um brilho único. Não descobri o brilho dos teus nas primeiras vezes em que te vi, embora houvesse alguma coisa, um certo aroma, que me fazia intuir que os teus olhos ainda não se tinham aberto mas que, a seu tempo, o fariam. Quando nos reencontrámos nem foi preciso olhar para eles, o brilho que trazias foi suficiente para sentir que já nos tínhamos entendido. Acabou por ser em pleno lusco-fusco que os vi, por fim brilhar sem medos nem hesitações, entre risos e descobertas. Pode ser que me engane, mas além dos meus, os outros olhos que por lá brilhavam comigo e que também se juntaram à festa, retribuíram o teu brilho de forma tão clara, que também os teus se sentiram em casa.
Todos os olhos têm um brilho único. Alguns, por razões diversas, vêm-se obrigados a apagar o seu brilho e afastar o olhar. É na cumplicidade dos brilhos que nos permitimos partilhar e emitir que percebemos exactamente onde podemos brilhar em segurança.
Liliana Lima




"Com um brilhozinho nos olhos
e a saia rodada
escancaraste a porta do bar
trazias o cabelo aos ombros
passeando de cá para lá
como as ondas do mar.
Conheço tão bem esses olhos
e nunca me enganam,
o que é que aconteceu, diz lá
é que hoje fiz um amigo
e coisa mais preciosa
no mundo não há.


Com um brilhozinho nos olhos
metemos o carro
muito à frente, muito à frente dos bois
ou seja, fizemos promessas
trocamos retratos
trocamos projectos os dois
trocamos de roupa, trocamos de corpo,
trocamos de beijos, tão bom, é tão bom
e com um brilhozinho nos olhos
tocamos guitarra
p'lo menos a julgar pelo som


E que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco.
passa aí mais um bocadinho
que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto
portanto,
Hoje soube-me a pouco


Com um brilhozinho nos olhos
corremos os estores
pusemos a rádio no "on"
acendemos a já costumeira
velinha de igreja
pusemos no "off" o telefone
e olha, não dá p'ra contar
mas sei que tu sabes
daquilo que sabes que eu sei
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos parados
depois do que não te contei


Com um brilhozinho nos olhos
dissemos, sei lá
o que nos passou pela tola
do estilo és o "number one"
dou-te vinte valores
és um treze no totobola
e às duas por três
bebemos um copo
fizemos o quatro e pintámos o sete
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos imóveis
a dar uma de "tête a tête"


E que é que foi que ele disse?...


E com um brilhozinho nos olhos
tentamos saber
para lá do que muito se amou
quem éramos nós
quem queríamos ser
e quais as esperanças
que a vida roubou
e olhei-o de longe
e mirei-o de perto
que quem não vê caras
não vê corações
com um brilhozinho nos olhos
guardei um amigo
que é coisa que vale milhões.


E que é que foi que ele disse?..."


"Com um brilhosinho nos olhos"
letra e música de Sérgio Godinho (1981)
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