sábado, dezembro 24, 2016

ABismo

Chegas, e a inquiétude da espera foge para o lado errado 
abre-se em mim um rio que me atira para a outra nargem
me afasta de ti à força da maré cheia 

As flores que outrora trazia com um sorriso 
fecham-se no fundo da mala 
embrulhadas na insegurança de quem acaba de sentir 
partir a espontâneadade no voo duma gaivota 

Há o sol, há o rio (sempre o rio) e há nós dois 
num tu e eu separados de braço dado

Caio num abismo interno onde me sento em frente ao espelho 
e luto comigo mesma como num jogo de computador 

A saudade, a vontade, a tranquilidade 
a afundarem-se no meu mar
e um silêncio estéril que esconde 
a inquietação, a insegurança e a zanga 
que enchem o espaço com a maré que enche

Não gosto de silêncio, nunca gostei 
tiram-me as palavras e perco o norte 
Sempre me assustou esse abismo de possibilidades 
que nascem do silêncio de outra pessoa 
Mas este silêncio é meu
sou eu que o digo quando ao pé de ti 

Quando chegas a inquiétude da espera foge para o lado errado 
Abro a Caixa de Pandora e deixo sair o vazio
que tu, do teu lado do rio tentas encher e preencher 

E por isso usas muitas palavras e dizes muitas coisas
talvez porque sabes que não gosto de silêncio 
talvez porque te entreténs saltando entre conversas 
talvez apenas para passar o tempo 

E eu, da margem do meu rio, 
vejo-te longe, muito longe, 
num barco que zarpou sem mim
e ao qual não consigo chegar 

Não fales 
Não, se falares sem dizer nada 
Não, se for sobre tudo menos o que nos diz respeito 
Não me digas a mesma coisa repetidamente 
Não, se essa coisa não nos está ligada

Não tenhas, tu agora, medo do meu vazio
Preciso de espaço para lidar com as minhas inquietações 
e preciso de ti para diminuir o caudal do rio que nos separa 



Liliana Lima 



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